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Cana de Açucar


 

 

 

A foice que decepa a cana

Deixa em mim as cicatrizes.

O meu patrão deitado em berço esplêndido

Quando pisa o chão com botina,

Pisa onde deitei raízes,

Onde forrei minha esteira,

Pra descansar meu corpo moído

Da minha dura rotina.

Que tal qual a cana ficou um bagaço.

Pro meu patrão o mel,

Mas, pra mim, melaço.

Meu trabalho

A vida do meu patrão adoçou

Enquanto a minha, amargou.

 

No escorrer dos dias

Pra esquecer da dor

E ter umas alegrias,

Eu bebi cachaça

E acabei em cana.

E fui amassado pelas autoridades,

Enquadrado na marginalidade

Em que já vivia.

Eu fui remoído

Já no meu bagaço

De cana.

 

Fim de semana,

Meu patrão descansa seu cansaço

Feito de pensar exaustivo.

Pensa logo existe e está vivo.

E no meu cansaço de viver sem reclamar,

Penso no meu existir

Lamentando o meu pensar.

 

Acho mesmo que essa vida

É um engenho

Em que uns são duros como aço,

Outros duros como cana,

Uns nasceram pra ser bacana,

Outros pra ser bagaço.

 

Mas seja qual for a peleja,

Essa vida tem beleza

E se necessário for

Redobrar o desempenho,

Castigar no meu labor

E fazer mais mel de engenho,

Cachaça e rapadura,

Pois vida assim tão dura

Necessita mais amor,

Mais carinho,

Mais cuidado,

Então pelo meu caminho

Mesmo que amassado

Quero dar mais sabor

A quem labuta ao meu lado.

 

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(Emanuel Galvão - Livro Flor Atrevida - Quadrioffice/2007)

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Emanuel Galvão
Escrito por:
Emanuel Galvão
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Publicado em 21 de Novembro de 2011

Atualizado em 02 de Julho de 2014

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