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O papel dos níveis na estrutura narrativa e estilística cinematográfica no documentário ficcional Lola, um filme de Brillante Mendoza.*

Demonstrando uma preocupação pouco valorizada atualmente com o cinema documentário, Brillante Mendoza se apropriou desta forma estilística para melhor imprimir a realidade e baixar o orçamento em sua obra ficcional no qual trata o tema de destaque e em expansão nas ruas das Filipinas: roubo seguido de morte.

Como se não bastasse sua ousada criatividade, Mendoza se utiliza incessantemente das funções cardinais, distribucionais e integrativas para demonstrar maior realidade às sequências do complexo discurso narrativo.

A história se passa na Capital das Filipinas, Manila, a segunda cidade mais populosa. O neto de Sepa (Anita Linda), personagem que dá início à narrativa, foi assassinado por Mateo (Ketchup Eusebio), neto de Puring (Rustica Carpio - outra idosa que interpreta uma luta diária pela sobrevivência), que está preso aguardando julgamento. O crime faz com que as duas avós se encontrem no tribunal, ambas defendendo seu lado. Uma trama muito simples, mas que demonstra uma preocupação inigualável com uma nova estética cinematográfica, a de relatar de forma documental uma história. Com este estilo, firmaram-se os elementos distribucionais da narrativa que, de forma metonímica, estenderam-se longas cenas sequenciais de relato do cotidiano, de cenário pobre com palafitas, bem habitual de uma idosa asiática, que começa a sua luta desde o caminhar, para providenciar o funeral de seu neto assassinado.

A fotografia, aparente como imagens de arquivo e com pouca estabilidade de câmera, trás maior intensidade e realismo ao filme. Ângulo de visão sempre neutro. Dois papéis, duas idosas em situações que desencadeiam paralelamente e se convergem a um fim em comum. Os enquadramentos em planos gerais, de conjunto e médio, simbolicamente representando um mesmo contexto cultural, político, econômico e social.

O filme dá início apresentando os conflitos panorâmicos da dimensão humana em que a personagem Sepa, ao caminhar nas ruas de Manila em um dia chuvoso acompanhado de ventos fortes, luta sem cessar, à resolução de muitos problemas que vão aparecendo conforme a caminhada da protagonista. Ao longo da narrativa o tempo dramático é o tempo real em que se passa a história. O primeiro elemento indicial se apresenta em seus dois níveis: conotativo e denotativo. Denotativo no acúmulo de informações que contribuem para contar, por meio sequenciais de planos, a história, como exemplo, Sepa às ruas, aparentemente protegida de seu neto mais novo, indo à compra do caixão de seu neto mais velho assassinado; conotativo, para representar metaforicamente aspectos da narrativa, como exemplo, a ventania que anuncia o dia de sofrimento, que ameaça a continuidade da vida e que se perde o controle sobre ele. Nesta caminhada, a primeira parada para tentativas de acender uma vela, que simbolicamente pode representar o motivo para o aquecimento, ou, indicialmente, para seu neto morto.

Numa estrutura linear, o desenvolvimento da trama causticantemente dá indícios com informações do ambiente pobre, as caracterizações dos personagens e condição social, cujas funções cardinais se mediam às menores catálises para estender ao que se propõe a história: dois nós de ações autônomas que acontecem paralelamente, mas que, cataliticamente desdobram, ao final, no conflito em comum. Enquanto Sepa deseja que Mateo cumpra pena na prisão, Puring deseja encontrar um meio de salvar o neto. Puring se vê disposta a fazer um acordo com Sepa, para que ela retire a acusação contra Mateo.

Numa relação de integração progressiva, ao contrário do que se espera: que um protagonista vença o antagonista, o desfecho se congratula no fim das narrações, convertendo para ambas o papel de protagonistas, dando a elas as aparentes desarrazoadas vitórias conquistadas. Onde ao invés de sofrerem mais pelas perdas, agora também materiais, condicionadas pela mínima condição de sobrevivência, as protagonistas superam as dores e resolvem fazer acordo para melhor resolver os problemas que literalmente encontram – os problemas financeiros, o motivo central causadora de toda a trajetória narrativa, inferida pela condição social. Na teoria quaternária, referida por Massimo Canevacci, em Filosofia do Cinema, podemos deduzir que no quadro o Pater é representado pelo proletariado, o Filius, pelo filho morto (herói ou anti-herói não consciente), o Spiritus, pela mãe, consciência da classe, trabalhadora, exemplo de luta, família e amor e o Diabulus, seria a sentença ao anti-herói, mas que rompeu-se pela ação inesgotável de compreensão das realidades em que as duas velhas viviam.

 

Referência Bibliográfica

CANEVACCI, Massimo. Antropologia do Cinema. SP: Brasiliense, 1982.

BARTHES, Roland. Uma Análise Estrutural Narrativa. SP: Vozes, 2007.

 

 

*Trabalho acadêmico construído no 2º bimestre, ao longo da disciplina Fundamentos em Cinema, ministrado pelo Professor Ph.D. em Cinema e Literatura, Almir Guilhermino da Silva, pela UFAL.

 

Prêmios

ASIAN FILM AWARDS (China)
Indicações
2010
Melhor Diretor
Melhor Editor
Melhor Filme
 
FESTIVAL DE CINEMA INTERNACIONAL DE DUBAI (Dubai)
Ganhou
2009
Melhor Filme
 
FESTIVAL DE CINEMA DE FAJR (Irã)
Ganhou
2011
Competição Internacional - Melhor Atriz - Anita Linda
Competição Internacional - Melhor Atriz - Rustica Carpio
Competição Internacional - Melhor Filme
 
FESTIVAL INTERNACIONA DE CINEMA DE FRIBOURG (Suiça)
Ganhou
2010
Don Quixote Award - Brillante Mendoza
Ecumenical Jury Award - Brillante Mendoza
 
GAWARD URIAN AWARDS (Filipinas)
Ganhou
2010
Melhor Atriz - Anita Linda
Melhor Atriz - Rustica Carpio
Melhor Desenho de Produção
Melhor Roteiro

Indicações
Melhor Fotografia
Melhor Direção 
Melhor Edição
Melhor Filme
Melhor Som
 
GOLDEN SCREEN AWARDS (Filipinas)
Ganhou
2010
Melhor Fotografia

Indicações
Melhor Diretor
Melhor Filme - Drama
Melhor Atriz - Drama - Rustica Carpio
Melhor Atriz - Drama - Anita Linda
Melhor Roteiro
Melhor Edição
Melhor Desenho de Produção

FESTIVAL DE CINEMA DE LAS PALMAS
 (Espanha)
Ganhou
2010
Melhor Atriz - Anita Linda 
Mellhir Atriz - Rustica Carpio
Melhor Fotografia
Prêmio Golden Lady Harimaguada - Brillante Mendoza
 
FESTIVAL DE CINEMA DE MIAMI
Ganhou
2010 - Prêmio do Júri - Brillante Mendoza
 
STAR AWARDS MOVIES (Filipinas)
Ganhou
2010
Melhor Fotogradia Digital do Ano - Odyssey Flores
Melhor Desenho de Produção do Ano- Brillante Mendoza

Indicações
Melhor Som do Ano - Albert Michael Idioma e Addiss Tabong
 
FESTIVAL DE VENEZA (Itália)
Indicações
2009 - Leão de Ouro - Melhor Diretor - Brillante Mendoza
 
YOUNG CIRCLE CRITICS (Filipinas)
Indicações
2010 -  Melhor Atuação - Anita Linda e Rustica Carpio

 


















































































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Lucciana Fonseca
Escrito por:
Lucciana Fonseca
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Publicado em 31 de Março de 2013

Atualizado em 31 de Março de 2013

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