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PERFUME

Teu perfume pairou por perto tão real, tão palpável, que eu poderia mesmo desconfiar que é você atrás de mim se eu não estivesse nesse boteco de quinta entorpecida e suja pelo último olhar que devorou as minhas coxas. Quase acreditei que era você com sua camisa polo branca e engomadinha, mas eu estou bêbada e com as unhas descascando e salto quebrado e lábios inchados num estado de espírito tão torpe que nem mesmo tua alma de anjo caído suportaria encarar sem prender a respiração. Eu acreditaria que era - ou é - você se embriaguez e riso frouxo não fossem o efeito da sua ausência. Boca seca, enfado e fastio são a consequência da saudade que tenho de ti. Sou folha seca que tem como companhia bueiros e meios-fio apodrecidos, o vento que me arrasta de esgoto em esgoto a ermo e sem rumo ou parada. Dançando no gemido de uma brisa morta e gelada, um cálido grito da alma que não quer mais viver nem sentir sem tuas mãos ao redor. Apago o cigarro na última taça amarela e sem gelo. E me rastejo qual cobra pelas ruas e vielas negras inerte e esquecida à espera de ser encontrada.

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Letícia Pontes
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Letícia Pontes
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Publicado em 28 de Novembro de 2013

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