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LUCY CONTA GIMBA, PRESIDENTE DOS VALENTES

LUCY CONTA GIMBA, PRESIDENTE DOS VALENTES

Poema-resumo da peça de Gianfrancesco Guarnieri, adaptado por Lucy Almeida.
Monólogo, que pode contar com a participação de outros atores ou vozes gravadas.

Meu chapa! Também nasci lá, no morro carioca.
Vivi entre os sambas, personalidades pitorescas,
Linguajar sincopado, solidariedade individual e grupal.
Mestre Guarnieri me criou na década de 1970.
Sou mera realidade. A ficção não me cabe!
Os fatos? Pura evidência! Ignorá-los? É coincidência.

Amigão! Eu sou da paz. Um fora-da-lei suburbano.
Amparado pelo amor e pela amizade. Lutei sim,
Por uma sociedade justa. Mas, meus ideais não passaram da periferia.
Fizeram-me heroi por reagir ao preconceito e injustiça social.
Por força das circunstância tornei-me respeitado, amado, e coisa e tal.

Por onde passei, despedacei corações!
Fui exemplo de brabeza por diversas gerações.
Guiô, meu grande amor! O seu rosto minha navalha marcou.
Nêga cem por cento! Boa de rebolado! Arrasava nos ensaios da escola!
Grande mulher! Gostava de homem. De homem no duro! Ah! Guiomar, como gostava!
Do meu amor, Guiô num conseguiu se livrar.
Viveu uns tempos com Gabiró, mas dele num recebia ordem.
A cicratiz? Troféu do macho que a dominou.

No morro, pobreza geral. Barraco de zinco. Fartura sem igual!
Farta cumê, farta vesti, farta remédio. Só num farta amizade da galera do local.

Tico, muleque doentinho, da Guiô tinha atenção e carinho.
Mas sua doença gerou crise conjugal. Gabiró saiu do sério,
Esbofeteia Guiomar, que sem piscar, dá o troco pra avisar – Bateu, levou.
E o vagabundo gamou. O tabefe aumentou o seu amor por Guiô!

Mãozinha é quem avisou: Voltou!... Voltou!... Voltou!...
Lá vou eu subindo o morro, ao som de tiros de rojões
Soltados pelos amigos, saudando minha chegada.
- Presidente do Valentes! Grita Amélia do Rui.
Sambas, gritos, aplausos, saudaram o meu regresso.
Organizaram um banzé!

Na verdade tô cansado! Poliça de treis estado está no meu encalço.
No morro pedi arrego. Guiô, êta nêga boa! Não me recusou.
Tico ficou tão contente! Mas Gabiró não gostou.
- Vim na paz! Ele, não acreditou.

Carlão, êta velho amigão! Não perdeu a mania do sermão.
Amigo, sério, direito, mostrou preocupação.
- Já parei de malandrar! Vamo lá pro Mato Grosso
Na fazenda trabaiá. Mão no cabo da enxada,
Nós vamo pegar sossego. Eu, Tico, e minha amada.

É gostoso! É muito bão! Tá de novo no pedaço.
Ser o centro da atração. Eu disse para Guiô:
- Valentia tá murchando! Papai aqui pregou! Me fizeram!
Gimba é prosa! Fama, é coisa gostosa!

Mesmo assim, eu queria fazer mais. Fazer gritar. Acabar festa de grãn-fino.
- Sabe? Lampião, esse era um cara machão. Entrava em festa dos cheirosos,
Mandava tudo ficar peladão. Mulé e home tinha que dançá!
Home que se recusasse, ele mandava ¨cortá¨.

- Já imaginou? Eu subindo o morro, bolso cheio de dinheiro...
¨Toma gente que tudo é nosso!¨ - Era tudo o que eu queria,
Fazer o morro feliz! Mas o prego tá baixando,
¨Tô cansado de cansá!¨

Gente! Vamos! Alegria! Vamos começar a festança!
E no meio do banzé, aparece Chica Maluca. A moçada não dá pé,
Irrita a velha caduca, que lança gritos de injúrias, roga praga, maldição:
¨Tu, nêgo forte! Tu apressou desgraça! Vem bola do céu! Vem bala da terra!...¨

- Faz essa louca acabar de berro! Eu grito impressionado.
- Vamo todos se benzer! Agouro é duro de roer!
A turma vai se esparçando. Cada um para o seu canto.
- Gimba! Diz Rui em tom baixo – a poliça, tem um montão lá embaixo.
- Sei me safar. Eu fujo por outro espaço.

Todos se recolhem ao barraco pra dormir. Guiomar não prega o olho.
Gabiró vem pertubá-la com seu amor carrapicho. E curtido pelo ódio
Por se sentir rejeitado, arma um plano agourento. Procura por Velha Chica
E lhe encomenda um despacho. Bem feito, para matar o Gimba e a Guiomar.
A Velha avisa: ¨Santo deles é forte. Morte pode voltá!¨ E juntos, vêem o sol raiá.

Guiô de mala em punho está pronta para partir. Ansiosa abraça Tico,
Chora ao se despedir. Eu logo apareço: - Vou te encontrar lá embaixo,
Prá despistar a poliça. Mas encontro Velha Chica que me avisa do despacho.
A Velha me desconcentra. Eu, malandro a excomungo, por temer a macumba.
Mas cuido em me mandar. Dou um aceno pro Tico, que retribui a chorar.

- Gimba! Gimba!... É Mãozinha, com a cabeça ensanguentada.
- Poliça! Tá subindo um montão. Vão cercar e pegar Gimba.
Sabem que ele tá aqui. Num dá pra entrar, nem pra sair.
Sentido-me encurralado, tive que recuar. E no barraco da Chica
Procurei me abrigar. O cerco foi se fechando e pensei: – Eles não vão me pegar!

Guiô, diz num grito de dor: - Some Gimba! É Melhor tu sumir, amor!
- Só vou com você. Vim te buscar. Vamo nós junto cansá.
Vou deixar de malandrá. Vamo ficar os dois esperando bala.
Véia, afunda nas reza, esperança sobrou!
- Foge! Foge general! Grita Tico. – Vão pensar que ocê sumiu voando.
- É aquele! É aquele! Aponta Gabiró cagoeta.
- É melhor se entregar! Grita o policial.
- Vamos acabar com ele! Fogo no barraco!
- Não! Grita Carlão. – Tem mulher e criança lá dentro.
Nunca matou pra roubar. Acuado, só matou pra se defender.
- Gimba tá no papo! Diz o policial Damasco.

E lá dentro do barraco: - Tão me obrigando a desistir!
- Gimba, a gente não pode desistir de viver! Tu não te mexe daqui!
Meu corpo esmaecendo, de febre ardendo. Tá chegando o quebranto.
- Eu vou sair. Tem de tê saída! Eles tão em todo lugar! Eles não vão me matar!
E começo a delirar: - Tão esperando pelo que já aconteceu.
Podem chorar o morto! É tudo infeliz! Agora eu sei uma porção de coisas!
Depois de morto eu sei. Queria descansar.
Me mataram. Que venham me buscar!

- Chega! Chega de falar em desgraça! Num fala mais Gimba.
Descansa, Gimba. Tu tá com muita febre! Adianta ficar assim!
Num repente: - Gimba, é melhor se entregar. Se entregar agora é ser corajoso!
Meu nêgo, me ouve! Vive, luta, se mexe! Tu me fez esperar muita coisa boa.
Agora tu tem que me dá! Tem que acreditar. Existe coisa boa no mundo.
Um pouquinho tem de sobrar pra nós!

- Por você, nêga valente! Gimba vai tentar. É pra não te deixar.
Se você guarda esperança no coração. Vou até pra cadeia.
- Damasco! Sossega que eu vou me entregar!
- Sai com as mão na nuca, sem truques!
- Pode deixar! Nêga, num vai me abraçar!
- Vou, amor! E me afoga num abraço.
Mãos na nuca, vou saindo, no que vou abrir a porta, recebo aquele impacto.
Santana, o tira irado, atira à queima roupa, e eu cai estatelado.
- Santana, desgraçado! Ele estava se entregando! Fala Damasco abismado.

- Mataram o Gimba! Eu fiz o meu nêgo morrer...
Silêncio! Abram alas! Ele tava só cansado.

Tico, lembra! O doentinho! Pega o meu revólver e sai de fininho.
De repente! Pá! Pá! Pá!
- Foi você! Foi você que matou o Gimba! E mata Gabiró.
Assutado, o menino corre morro acima pra cumprir a sua sina.
E aqui, esta história termina. Mas, antes que desçam as cortinas!

(vozes) “É preciso refazer”...

E aí? O que foi que mudou? Quem dá segurança a nós, torna-se o pior algoz!
E quem cuida da nação, o mais felino ladrão!

(vozes) “ Não é perfeito o meu país!”

“Senhor! Deus dos marginalizados!
Dizei-me Vós, Senhor Deus!
Quando o bem comum na Terra
Será igualzino ao Céu?”

(vozes) “Lutar e não cansar, eis a questão.”

Se vocês gostaram... Aplaudam!
Se não gostaram... Engulam!
Por quê?
“ Tudo vale à pena
Se a alma não é pequena!”


Ficha técnica:

Direção, apresentação, figurino e cenário: Lucy Almeida

Figurino – Calça comprida branca, tênis branco, camiseta listrada preto/branco, camisa social manga longa vermelha e outra verde por cima da vermelha, chapéu de malandro.

Elementos de cena – uma cadeira, um robe feminino ou camisola de dormir longa

Cenário – uma cruz feita com o fundo de garrafa pet 2litros, branca, painel de uma favela com caixas de sabão em pó, telhado de “zinco” feito com embalagem de leite longa vida

Trilha sonora:

1 – Aquele Abraço, Gilberto Gil (abertura)
2 – No pagode do Vavá, Paulinho da Viola (festança do banzé)
3 – Andanças(refão), Beth Carvalho e Goldens Boys (fuga de Gimba e Guiô)
4 - Gimba, Presidente dos Valentes, Lucy Almeida (marcha fúnebre)
5 – O que é o que é? Gonzaguinha (encerramento)


Gimba, Presidente dos Valentes
Lutou com unhas e dentes
Pra defender sua gente 2 X
Ô ô Gimba

O nosso heroi
Cansado de cansá
Subiu o morro
Pra se regenerar
Guiô seu grande amor o apoiou
Mas um tira marvado
A sua vida ceifou
E o noso heroi
Pro outro plano viajou
Ô ô ô ô

Gimba, Presidente dos Valentes
Lutou com unhas e dentes
Pra defender sua gente 2 X
Ô ô Gimba






























































































































































































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Lucy Almeida
Escrito por:
Lucy Almeida
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Publicado em 25 de Dezembro de 2016

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