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O Maravilhoso Ensino Estatal

 

Júlio Barros não sabe mais o que fazer. Seus pais, desde quando era um bebê, acostumaram o filho com os livros. E ao decorrer do tempo, sempre presenciou o pai, Castro Barros, na biblioteca estudando; sob a mesa, sem camisa, descalço, fumando um cigarro enquanto fazia suas pesquisas e, escrevendo as suas impressões dos estudos. A seriedade do pai nessa atividade, fez dele um menino comprometido com a busca de novidades sobre o mundo. Não só o exemplo de seu pai o fez gostar de compreender as coisas, mas as histórias contadas por ele e a mãe, Joaquina, preenchiam e povoavam o imaginário de Julinho.

A atividade intelectual se estabelecera no coração de Júlio, que até então, tinha apenas 12 anos de idade. Mas havia um porém – tinha que, obrigatoriamente, estudar na escola da rede pública –. O pai fiscalizava o que o filho andava aprendendo na escola; se fosse algo de bom proveito, não importava-se com o conteúdo; caso fosse algo que pretendesse mudar o caráter do filho, mostrava o quão danoso e deletério seria tal assunto, e corrigia na mesma hora o que a escola ensinara de ruim. No entanto, Castro Barrosdizia a Julinho para submeter-se ao que a rede de ensino lhe passava, sendo ele – o pai – o seu maior confidente, no que trazia todas as informações do que aprendeu, a ele.

Certo dia, Julinho acordou com o pé esquerdo. Estava criando uma gama de teorias do que poderia acontecer no próximo filme dos Vingadores. E nesse dia, não queria ir para a escola, pelo simples fato de que a sua atenção voltava-se apenas as pesquisas e criações de suas teorias interessantíssimas. Joaquina obrigou-o dizendo:

Julinho, você precisa ir pra aula, caso não vá, menino, o conselho tutelar bate em nossa porta, como da outra vez.

Isso é ridículo, queria aprender em casa, como antes!

Olha a boca! Agora pegue suas coisas, e vamos!

Julinho odiava matemática. Pra ele, saber apenas somar, subtrair, dividir e multiplicar, já era o suficiente para comprar pão na padaria. Chegando na escola, abriu a porta e sentiu-se um escravo submisso ao que lhe ordenassem. Teria de aprender na marra. Tirar boa nota na prova só era possível se assimilasse o conteúdo programático da matéria. O professor Valério Gambiarra, professor de história, estava cobrindo o rombo do quadro de professores daquela escola, e nesse dia, passou alguns exercícios de equação do segundo grau. Julinho respondeu algumas questões, mas havia uma que causara-lhe dúvida. E ao levar a tarefa ao professor, perguntou:

Está certo professor Gambiarra?

Não! Respondeu Gambiarra.

Por quê?

Sua resposta não é a mesma do que está aqui no meu livro. Tente de novo.

Julinho tentou. Mudou a resposta. E novamente, foi ao professor:

Eai professor, e agora, tá certo?

Não!

Dessa vez, Julinho queria saber o que estava errado em seu exercício; errar e não saber do porque está errando, para si, não fazia nenhum sentido tendo um professor em sala de aula. Por mais que não gostasse da aula, sempre foi um aluno aplicado; tornara-se subserviente aos métodos de ensino no MEC Desde cedo; e naquele ritmo, já entendia o quão penoso era fazer aquilo que não era de seu interesse; porém fazia, mesmo achando tudo aquilo um pé no saco; afinal, a nota azul era essencial para passar de ano. Perguntou Julinho:

O que está errado gambiarra?

Tente de novo, Júlio.

Mas eu quero saber o que está errado pra eu corrigir.

Tente de novo, você vai acertar.

E sem mais paciência, disse:

O que está errado nessa merda? – O professor ficou aterrorizado, como se Julinho estivesse proferindo discurso de ódio. E aqueles olhos esbugalhados fixaram-se no pobre menino, como geralmente tais professores reagem atacando-os e rotulando-os como mini-fascistas. Objeções lógicas não tem validade dentro do contexto ideológica dentro da sala de aula; ou aprende ser irracional, ou aprende a ser irracional.Mandou o rapaz para a diretoria. O diretor chamou o pai e a mãe de Julinho. E ao chegarem perguntaram:

O que aconteceu D. Telma? Perguntou Castro Barros.

Julinho xingou o professor Valério Gambiarra – respondeu a diretora Telma.

E o que aconteceu Julinho? – perguntou Castro Barros.

O professor não quis dizer o que estava errado no meu exercício, e perdi a paciência de perguntar e disse: “O que está errado nessa merda”, ai ele não gostou.

A sinceridade do menino assustou a diretora da escola. E tendo visto Julinho falando de forma clara e objetiva o ocorrido em sala de aula, perguntou aos pais:

Mas o que os senhores estão ensinando a essa criança? Como pode dizer isso aos nossos professores, e, não sentir remorso do que fez? Acho que a lição dada a vocês da última vez não foi o suficiente, não é? Esse negócio de homeschooling só atrapalha os nossos métodos de ensino. A educação estatal sofre todos os dias com esse tipo de comportamento irracional de pais ignorantes, que nunca fizeram curso superior em pedagogia, e se acham pedagogos; essas atitudes corrompem as “nossas” crianças. Se da próxima vez que isso acontecer, e novamente, ter que vê-los aqui em minha sala, o conselho tutelar tomará as providências cabíveis, fui clara?

O pai de Julinho, apertou o lábio inferior com os dentes, indignadíssimo com a presepada na qual a diretora disse-lhe no mais sincero e revoltante relato do que o menino se deu ao trabalho de relatar – a ociosidade do professor, que descumpriu com o compromisso de “mestre”. E nessa clara declaração de Telma, os pais tiveram que acatar o que disse-lhes a diretora. Julinho levou uma suspensão de três dias. Ficou em casa, estudando suas teorias mirabolantes sobre a história de seus super-heróis favoritos. Castro Barros foi conversar com o filho, sentou-se ao seu lado e disse:

Julinho, sei que não é fácil a vida na escola. Sei que você queria estudar em casa como antes fizemos eu e sua mãe. Mas você viu no que deu, né filho? Não podíamos continuar naquilo, se continuássemos, perderíamos você; e não posso correr mais esse risco. Por favor, tente não fazer mais isso na escola, se não, corremos o risco de perder a sua guarda para o estado, e ainda, eu, e sua mãe, podemos ser presos. Eu te amo filho, lembre-se sempre, julgue tudo e retenha o que é bom.

 

 

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Anthony Lima
Escrito por:
Anthony Lima
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Publicado em 18 de Outubro de 2018

Atualizado em 19 de Outubro de 2018

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