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CONSELHOS DE UM CRIMINOSO

 

Findou-se a semana e a situação de Jonas não estava fácil. As vendas daquele mês não dariam para cobrir às despesas mais comuns da empresa, e nem as contas de casa. Junto à família, já tinha buscado ajuda para financiar suas dívidas a juros justos, no que não obteve êxito. Suas opções estavam esgotando-se mais do que já estavam, e o desespero batia fortemente em seu coração. Jonas tinha um pequeno negócio. Produzia e revendia queijo ralado. Mal sabia gerir as finanças. O que se produzia e o que se vendia, não supriam os gastos com a produção e não lhe rendiam lucros suficientes para sobreviver. A parcela do carro, e o valor do apartamento já estavam prestes a vencer; a água encanada já não fluía dentro de sua residência, no que precisava passar parte da tarde do dia carregando água do vizinho, algo que pra ele, era humilhante, sendo ele um empresário que um dia teve um sucesso descomunal em sua vida.

Jonas tinha uma vida boa em sua terra natal. Possuía terras no Paraná. Era um homem de prestígio, rodeado de amigos de todos os tipos – interesseiros, invejosos, parceiros de infância, e tudo de bom e ruim que existe em qualquer convivência social. Produzia soja, e tinha em sua posse não sei quantas cabeças de gado; e a atividade agropecuária era até então, a sua riqueza e o seu meio de sobreviver, e é claro, de curtir a vida até as décadas de 1998. Naquele ano em diante, sua esposa, Maria Augusta, desentendeu-se com Jonas, que nos posteriores acontecimentos, decidiu ferrar com o pobre homem. Descobriu as traições do marido; e o primo, em perder tempo, viu aí a oportunidade de serrar um pouco dos bens de Jonas, e encheu-lhe a cabeça para tomar o que fosse possível do marido pérfido. Tirou-lhe toda a sua riqueza, e, além do mais, colocou-lhe os filhos a favor de si, e contra o próprio pai, ao ponto de até caluniá-lo para despertar ódio suficiente nos filhos. Maria queria ver o marido na sarjeta, sem dinheiro, sem esposa e sem filhos; o sofrimento da mulher achou luz na desgraça do marido, que agora, pagaria pelo que fez com a pobre mulher. E assim se fez. Jonas, ao perder tudo, mudou-se para Maceió, capital de Alagoas, viver o resto de sua vida miseravelmente. Abriu o seu negócio a duras penas no centro do comércio da cidade, vendendo o resto dos bens que lhe sobraram a preço de banana. Casou-se novamente. Sua nova esposa Lídia, diferentemente de Maria Augusta, Amou esse homem com todas as suas forças. Mesmo não tendo aonde cair morto, ela estava lá, incentivando, trabalhando, e cuidando agora, da pequena Júlia, fruto da miséria de amor.

Vendo a situação que se encontrava o maldito homem, passou por diante de seus olhos, a fonte na qual resolveria todos os seus problemas financeiros, o “Banco do Brasil”. O homem já tinha passado pela infelicidade de perder tudo o que tinha; teve tudo – fazia grandes festas, financiava shows Megalomaníacos, aproveitava a vida em dissoluções com mulheres diversas –, enfim, tinha tudo, tudo o que o dinheiro poderia comprar. Agora, encontrou-se na situação de homem alfa; tinha agora que começar uma nova vida, (diferente daquela de filho único que herdara herança dos pais) com amor sincero, e frutos de carinho e paixões verdadeiramente valorosos. Todos os dias ia consultar o saldo de sua conta. E todo santo dia, via a mesma informação, – “Saldo Zero”. Não passava pela sua cabeça a esperança de que alguém depositaria o mínimo que fosse de algum valor, e nem tinha em sua mente quem poderia fazer isso; nem mesmo o banco, no qual já estava devendo 175 mil reais. Queria mesmo era filmar o dia a dia de trabalho dos funcionários, e a movimentação diária do Banco, e em seguida planejar um assalto.

No décimo dia de espionagem que fez no Banco, colocou o plano no papel. Infelizmente, seu plano teria uma vítima fatal; teria que executar o segurança, para que o assalto tivesse sucesso e não houvesse impedimentos. Matando o segurança, teria tempo para fazer com que o caixa lhe desse todo o dinheiro que estivesse ao seu alcance. Nunca roubou nem um chiclete numa mercearia. Não tinha nem como contrastar algo pequeno para a magnitude de um possível êxito que pretendia ter ao assaltar o Banco. Para Jonas, depois de ter planejado sua execução, foi a um amigo pedir uma arma emprestada. Fazia tempo que não pegava numa pistola, desde quando começou a campanha do desarmamento em 23 de junho de 2004. Desde então, não tinha dinheiro nem para ir ao clube de tiro, para obter a habilidade, na qual pelo tempo, tinha perdido; obviamente nem dinheiro tinha para comprar uma arma. Contudo, tinha conhecimento de homens chegados a ele, que estavam na vida do crime, e foi até um amigo seu mais próximo tomar empréstimo da arma. Saiu de casa decidido, com a maior certeza de que aquele era o único jeito de resolver as coisas. Diante da vida que teve, Lídia era a prática do seu perdão. Tudo aquilo que negou a ex-mulher dava de mão beijada a sua esposa. Respeitava-a como uma santa. Ela e a filha converteram o coração de Jonas dando-lhe o sentido real da existência e a noção da beleza e do amor familiar. Quando se via num mato sem cachorro, pensava nas duas mulheres de sua vida, e isso dava a coragem de fazer o que tinha maquinado em sua mente a fazer.

Chegando na casa de Geraldo, foram logo ambos, cumprimentando-se:

Eai Geraldo, tudo bom?

Tudo ótimo, Jonas! O que fazes aqui?

Preciso de uma arma emprestada.

Como é?!

Ora! Vai emprestar ou não? Respondeu com impaciência e ignorância.

Jonas, te considero pra caramba – disse o traficante de drogas – porém preciso saber o que está acontecendo. Desde o tempo em que te conheci, quando comprei o seu carro, percebi o teu esforço em trabalhar honestamente, ganhando cada centavo, fruto do seu negócio de queijos. Por que agora queres uma arma?

Jonas aos prantos começou a contar tudo o que se passava em sua vida. Contou-lhe as desgraças que sofrera; disse-lhe o caos financeiro no qual encontrava-se; a perda da fortuna que tinha; e tudo dizendo com lágrimas nos olhos, e o soluço na voz. Geraldo, ouvindo tudo aquilo aconselhou-o:

Jonas tá aqui – colocou na mesa a arma e as munições –, porém, te digo uma coisa: eu só estou nessa vida porque fiz as escolhas erradas; entretanto, pra mim, só há dois destinos, ou a prisão, ou a morte. E te digo mais, não consigo sair dessa vida, não porque eu não quero, mas, porque já aceitei o meu destino; e não faço questão de sofrer as consequências dos meus atos. Tornei-me o que sou hoje, não por falta de oportunidade, mas mediante livre arbítrio. Pensa que não existiu pessoas que me disseram para não entrar nesse mercado no qual me envolvi? Não dá nem pra contar o tanto de gente que me estenderam as mãos, uns até, implorando para não desgraçar minha vida com esse mundo. Creio que você é a pessoa que merece saber disso, e te digo, não faça isso, mas caso queira, tá aqui o que me pediu. Mas quero ainda saber uma coisa: de quanto você precisa?

Não Geraldo, deixa pra lá. – disse Jonas, enxugando o resto de lágrimas dos olhos.

Geraldo pegou a bolsa no quarto vizinho a sala. Em seguida, colocou um bolo de dinheiro na mesa, junto a arma. Dinheiro sujo, do tráfico, dinheiro esse que deixa famílias completamente perdidas, sofrendo pelos filhos que estão na horrenda vida do crime, drogando-se, apanhando e roubando para desfrutar do funesto prazer alucinante do crack.

Tá aqui Jonas! – disse Geraldo, e continuou – E te digo mais: com relação ao dinheiro, de forma alguma, cobrarei de ti; porém, se você achar que me deve algo, pode me pagar; caso não queira, eu ainda serei seu amigo, pode ter certeza que não farei questão de que me devolva.

Jonas pegou o dinheiro, a arma, e as munições; colocou na bolsa, e foi embora.

 

 

 

Anthony Lima, 25 de outubro de 2018

 

 

 

 

 

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Publicado em 25 de Outubro de 2018

Atualizado em 06 de Novembro de 2018

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