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O Sobrevivente

 
O Personagem

José era pedreiro e morava em Niterói amasiado com Dolores, com quem se dava muito bem e a quem considerava sua esposa. Ela era doméstica, e mãe do seu único filho, um menino de quatro anos. A sua sogra vivia em Maceió. Devido a morte do marido ela aceitou o convite pra vir morar com a filha mais velha no município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Chegara de mudança havia uma semana. Dolores combinou com o esposo de visitar a irmã naquele Sábado, e só voltar no Domingo, à tarde. Ele gostaria muito de poder acompanhá-la, fazia tempo que não atravessava a Baía de Guanabara e sentia falta do passeio, no entanto tinha um serviço contratado e precisava do dinheiro para complementar o orçamento doméstico. Saíram de casa, no dia seguinte, de manhã, bem cedo. Juntos desceram o morro até o ponto onde Dolores pegaria a condução. Despediram-se com a chegada do coletivo. Ela então subiu no ônibus apressada; estava ansiosa pra rever a mãe que há muito não via; e levou consigo, o jovem Giancarlo, para conhecer a avó; José seguiu caminhando para o lado oposto, foi atender ao compromisso: virar concreto na batida de uma laje. Chegando no local constatou-se a ausência de alguns operários, porém, os que compareceram formaram um grupo e após avaliarem as condições de trabalho decidiram por executar o serviço, cientes de que, com menos colaboradores, o esforço seria grande. Ao final, no acerto de contas, cada um recebeu em dobro o valor previamente combinado, porque o dono da obra soube reconhecer o empenho extraordinário do grupo, que foi mesmo puxado e cansativo.  A laje que deveria ter ficado pronta por volta do meio-dia, só foi concluída às 15:00hs da tarde. Terminada a lida, foi servido um almoço para os trabalhadores. A cerveja estava liberada; para quem aprecia, a cachaça também. José fartou-se. Mais tarde, cansado, ele subia o morro caminhando trôpego na volta para casa, e quando passou diante do bar do seu Alfredo, ouviu alguém gritar seu nome e deteve o passo. O chamado veio de alguns amigos que queriam lhe falar. Atendendo ao convite juntou-se ao grupo, e ficou a beber e a conversar enquanto jogavam partidas de bilhar. Passava de nove horas da noite quando ele finalmente chegou cambaleando, abriu a porta da casa com muita dificuldade, entrou e acendeu a luz da sala. Apoiando-se às paredes evitou a cozinha e seguiu direto para o banheiro; tomou um banho demorado e, por fim, caiu na cama, exausto, e logo dormiu.

O Sonho

José tomava banho de mar, mergulhava para um lado, nadava para o outro, até que ficou a boiar no mais prazeroso deleite totalmente entregue ao balanço das ondas, quando, de repente, desceu numa vaga bem maior que as de costume, e logo depois começou a subir a onda que seguia em direção à praia; esta dobrou acima de seu corpo iniciando um funil; quando se deu conta do que estava prestes a lhe acontecer, já era tarde para tomar qualquer providência, pois se encontrava dentro do enorme tubo d’água e não havia mais o que fazer a não ser, pedir a benção divina e entregar a sorte ao destino. Sugado pelo sorvedouro girou dentro do torvelinho, despencou num abismo eterno e desceu fundo no oceano de águas límpidas. Posteriormente estava na praia deitado de bruços e de costas para o mar, ligeiramente ao alcance das ondas. A todo instante elas arrebentavam num estrondo, uma após a outra, progrediam sobre ele numa enxurrada de água com espuma e muita areia, mas logo recuavam, em abandono passageiro, adiante a ação tornava a se repetir. Esse movimento do mar era evidente, o que era levemente perceptível, embora estivesse acontecendo rápido, era a mudança de posição da areia; esta era levada pelas ondas e avançava sobre o seu corpo onde permanecia cobrindo-lhe feito um cobertor. Mediante esse processo constante ele desaparecera rapidamente, e quase por completo, apenas a cabeça, com o queixo apoiado sobre os braços cruzados a sua frente, se mantinha inteiramente descoberta, seguramente não ficaria assim por muito tempo.

O Drama

José acordou. Estava deitado de bruços, como no sonho a beira mar, entretanto a cabeça estava de lado apoiada sobre os braços cruzados a sua frente. De imediato notou que estava imobilizado por uma grande massa, não sabia dizer de quê, cobrindo-lhe quase todo o corpo: os pés, as pernas e as costas até a altura das omoplatas. Queria mudar de posição, deitar-se de costas, todavia estava preso e não conseguia se mover. Apático ele não desejava despertar de vez, porém, ainda que contra a própria vontade abriu os olhos sonolentos, mas só enxergou a escuridão. Moveu as pupilas de um lado para o outro e de cima para baixo, piscou várias vezes, procurou a sua volta uma réstia de luz qualquer, e deu-se conta de que o negrume era realmente absoluto. Essa constatação causou-lhe profundo mal estar.

Será que eu estou acordado de verdade, ou será que estou vivendo o mesmo sonho e agora completamente encoberto de areia? Cego tenho certeza de que não estou, ponderou. Ninguém fica cego de uma hora para outra sem um motivo concreto, justificou. Além dessas dúvidas não recordava quais foram as suas últimas ações até se deitar e pegar no sono. Na sua memória viva e presente havia um oceano de águas límpidas e uma forte lembrança de si próprio girando subjugado no mar em redemoinho, que lhe pareceu muito real; havia também, ondas a quebrar na praia e um cobertor de areia. Parou um instante para raciocinar e com muito empenho tentou se lembrar de que maneira fora parar naquele lugar extraordinário, infelizmente nada veio à lembrança. Sofreu uma amnésia alcoólica e não se recordou da obra, nem dos amigos, nem da bebedeira... Fez um esforço de memória inútil e em função do ato penoso a cabeça começou a rodar e a cama parecia flutuar. Nauseado com a perturbação cerebral súbita aquietou-se, relaxou a mente e esperou, sem pressa, até livrar-se do distúrbio e reconfortar o ânimo.

Embora desorientado, mas já recuperado da vertigem, decidiu não fazer juízo prematuro da circunstância; achou por bem primeiro analisar a disposição de tudo ao redor com muita calma. Sem a claridade mínima para enxergar o ambiente sabia que enfrentaria enorme dificuldade para avaliar o que quer que seja, apesar de tudo, não se deixou abater. Ainda jovem aprendeu com a vida que, usar a razão para elucidar o desconhecido ajuda a afastar o medo. Determinado a seguir o aprendizado logo notou que o braço esquerdo dobrado sob a cabeça formigava levemente pelo longo período de imobilidade. Fechou a mão esquerda sob o braço direito na altura do sovaco e espremeu o lençol da cama, amarrotou o tecido entre os dedos e constatou que estava molhado. O que é isso?! Tenho certeza de que não urinei enquanto dormia! Estava muito confuso, e as constatações que se seguiam, longe de acenderem-lhe a luz do entendimento, pelo contrário, mantinham-no inteiramente envolvido numa escuridão de ignorância a ponto de duvidar, seriamente, de estar mesmo desperto. Devo estar dormindo, pensou, carente de provas. No sonho eu acordo e encontro esses absurdos, só pode ser. Aprumou a cabeça no pouco espaço que havia e ficou com o queixo apoiado sobre os braços cruzados, em seguida fechou a mão direita, apertou o ombro do lado esquerdo e depois, abriu e fechou os dedos sem dificuldade; ao tentar esticar o braço, este avançou pouco mais de um palmo e bateu em algo duro. Caramba! Não quero ficar apavorado, no entanto não reconheço esse lugar. O que será isso a minha frente, uma parede? Quis esticar o braço pro lado, de novo algo lhe impediu o movimento. Percebendo que o espaço era restrito bateu com força o cotovelo para afastar o que estava lhe sufocando, nada saiu do lugar. Tornou a apalpar o obstáculo duro a sua frente, constatou que a superfície era lisa e estava molhada, mas não conseguiu identificar o que poderia ser aquilo. Esfregou as unhas para se certificar: tão duro quanto pedra, não havia dúvida. O que será isso, liso e duro desse jeito, uma chapa de vidro? De onde terá vindo, e essa água? Não, não pode ser! Questionava e, ao mesmo tempo, negava os próprios pensamentos. Inconformado continuou deslizando a mão exploratória sobre aquela superfície escorregadia, até que reconheceu, embora sem muita convicção, aquilo que tateava, era o ladrilho, que reveste o chão do quarto. Como foi que isso veio parar aqui na minha frente? Será que o mundo virou de ponta-cabeça?

Diante de disparate tão medonho Zé fechou os olhos, inspirou com vontade, depois expirou o ar, num sopro entediado. O absurdo daquela situação confundiu-lhe as ideias e ele não soube mais em que pensar. Sem temer a má sorte decidiu entregar-se ao sono novamente e esperar o dia raiar. Deitou a cabeça sobre os braços cruzados a sua frente e fechou os olhos. A fadiga ajudou, o álcool e a carência de sono também, e ele adormeceu novamente.

O Evento

Ao amanhecer, informava o noticiário:

A chuva começou de madrugada. O temporal veio acompanhado de uma ventania que chegou a registrar mais de 70 quilômetros por hora. Um deslizamento de grandes proporções ocorreu na cidade, encobrindo de terra aproximadamente 40 casas. Bombeiros estimam que cerca de 200 corpos estejam soterrados no local.

O Desfecho

José fora resgatado ainda grogue 6 horas passadas após o deslizamento.
 
 
Dilucas


























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Publicado em 06 de Novembro de 2018

Atualizado há ± 16 horas

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