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Batman

Cristiano Zanetto de Matos é empresário e natural de Urussanga, município ao sul de Santa Catarina.

Um dia meu pai foi diagnosticado com câncer no rim e no pulmão, ele disse. À época fui seu grande incentivador no enfrentamento da doença, continuou contando sua história. Foram horas, dias e meses muito aflitivos, tanto para o meu velho quanto para o resto da família. Quando por fim vencemos a batalha e superamos o câncer “falei pra ele que estava na hora de ser o herói de verdade”.

A partir de então passei a me vestir de Batman, aquele mesmo das histórias em quadrinhos cuja imagem representa dor e superação. Pra quem não sabe, esses fatores têm enorme importância para a criança que faz tratamento de quimioterapia - por ser um procedimento que dói muito e demanda enorme força de vontade.

Travestido de Homem Morcego iniciei minhas visitas nas enfermarias de Hospitais onde meninos e meninas com câncer ficam internados sob tratamento médico. Minhas aparições sempre causam jubilo arrebatador nos pequerruchos; entretanto, são consideradas manifestações normais, em se tratando de um Super Herói.

Um dia, porém, o telefone tocou e uma senhora, que não se identificou de pronto, disse exatamente assim:

- Batman, preciso da tua ajuda!

Juro! Foi assim mesmo. E continuou:

- O meu filho está com câncer. Há dias que está internado e, por conta da quimioterapia está com depressão e se recusa a continuar o tratamento. A diretoria já ameaçou inclusive de dispensá-lo e abrir vaga para outro paciente. Por favor, me ajude, venha rápido. Não podemos ser despejados daqui.

Instou com tanta veemência, que respondi afinal:

- Tá bom. Antes me passe uma informação, em qual estabelecimento vocês se encontram? Estou indo aí.

Disse estou indo aí, só que a roupa de Super Herói me leva em torno de 40 minutos pra colocar. Ela pesa 25 quilos. É uma armadura de verdade. Não dá pra trocar rápido! Não sou o The Flash. Uma hora e meia depois trepei na minha moto e saí fantasiado com a capa tremulando ao vento a caminho do Hospital. Ao chegar na portaria, ansioso, falava alto e as palavras irrompiam da minha boca em golfadas; o segurança encarou-me com desconfiança, ignorei a sua cisma e apresentei-lhe todos os dados que eu tinha. Proferi apressado:

- Ouça, o nome da mulher é Rosangela e o nome do paciente, seu filho, é Wesley. Eles estão no cômodo de número tal, na ala infantil. Estou aqui porque preciso motivar esse garoto.

O segurança percebeu a minha urgência, fitou-me sisudo e disse o seguinte. Lembro até hoje daquelas palavras sábias que ele falou pra mim “Vou ali tomar água e volto daqui a 5 minutos”. Sorrindo entrei no edifício e fui caminhando aflito até a oncologia. Liguei pra mãe e pedi que saísse um instante, pra conversarmos. Ela veio, aproximou-se, então indaguei:

- Como é que está o teu filho?

E a nobre senhora, tão generosa, me expôs os mesmos sintomas apresentados pelo meu pai durante a depressão: deitado o tempo todo, não se alimenta, não fala, não pisca... eternamente olhando pra parede.

Perguntei:

- Onde é que ele está, no aposento?

- Está deitado, a cama está no canto da parede lateral com a parede de fundo, longe da passagem. Só nós dois ocupamos esta sala.

Pedi pra que retornasse. E avisei:

- Daqui a 2 minutos vou entrar.

A triste senhora se foi. Imediatamente, quando a porta moveu-se nas dobradiças e fechou-se à suas costas, matutei:

- Meu Deus! Com meu coroa foi fácil, eu o conheço, a gente tem intimidade. Este garotinho tem quatro anos! Como é que vou vencer a sua apatia, como fazê-lo olhar para mim e convencê-lo a seguir um tratamento dolorido, de que maneira?

Atento ao número do recinto diante dos meus olhos imaginei o ambiente - a criança sobre a cama, no canto, encostada à parede, bem ao fundo e distante da entrada. Desnorteado, pensei com meus botões:

- Eu sou o Batman, o que ele faria?

E, de novo repeti a frase:

- Nem terminei a sentença e meti o pé na prancha, assim PÁ, com tanta vontade que a fechadura partiu-se e o acesso escancarou-se à minha frente.

Juro! Quebrei a porta. O barulho da pancada venceu a indiferença do pequenino. Por puro reflexo ele virou o rosto com ímpeto e, atento, olhou na minha direção; em seguida, volveu-se arrebatado, mirou o semblante comovido ao seu lado e perguntou assustado:

- Mãe, tu chamou o Batman?

Há tanto tempo sem ouvir a sua voz D. Rosangela respondeu emocionada:

- Chamei! Ele vai falar contigo.

O prejuízo já estava sacramentado e a passagem livre, mesmo assim, perguntei respeitosamente ao menino, posso entrar no seu quarto?

Deixa-me explicar isso: há um treinamento no qual a gente aprende que um paciente confinado num recinto por muito tempo passa a encarar aquele lugar como o seu território, a sua morada, o seu espaço íntimo. Por isso precisamos pedir permissão para entrar.

Risonho e “descontraído” ele respondeu que sim. Entrei, sentei-me ao seu lado e começamos a conversar. Falei de dor, de superação, de fé. Inesperadamente surgiu à nossa frente um enfermeiro com 2 metros de altura e 1,40 metros de envergadura, acho até que tivesse outra profissão, devia ser de segurança. Nunca, na minha vida, tinha visto um cara tão forte. Chegou extremamente assustado, porque lhe expuseram que um louco fantasiado de Batman entrou no prédio e quebrou a porta num dos cômodos da oncologia. Corre e tira esse cara de lá. O sujeito chegou afoito. Percebi que precisava agir rápido, porque a mãe logo ficou nervosa, o guri espantado e eu não tinha ideia do que fazer... se entregava de uma vez o cartão de crédito pra abater o prejuízo, enfim... De pé no meio do aposento olhei para o menino e, com a voz empostada, disse, apontando para aquela massa de homem com as mãos no portal bloqueando o caminho:

- Wesley, você sabe quem é aquele cara?

Dito isso, o sujeito abaixou os braços e aprumou o corpo, e o Wesley respondeu:

- Não.

- Aquele é o Lanterna Verde, adverti.

Juro! E no momento em que eu falei “Aquele é o Lanterna Verde”, ele abriu um sorriso. Não o menino, mas o cara. Sério! Parecia um cantor de pagode. Aproveitei a descontração do momento e informei ao rapazinho:

- Ele vai tirar o teu sangue para preparar uma quimioterapia que vai te curar, mas vai ser dolorido, vai te causar muita dor. O que não posso, é mentir pra ti.

Nesse instante fui convidado a me retirar do estabelecimento. A minha reflexão foi automática:

- Nunca mais vão me deixar entrar aqui.

Passado um dia ou dois, a Doutora Juliana, chefe na Oncologia da Pediatria, liga pra mim e diz assim:

- Aqui é a Juliana, doutora no Hospital tarara tata... Você é o Batman?

O que é um peido para quem já está todo cagado? Raciocinei... e falei:

- Sou eu mesmo.

- Liguei porque queremos te convidar para tu fazeres parte da nossa equipe. Percebemos que quando você nos visita, as crianças respondem muito positivamente ao tratamento.

E disse mais:

- Vamos liberar o teu acesso para que tu possas entrar a hora que quiseres.

- Muito obrigado, para mim é uma honra, respondi.

Há 10 anos que faço esse serviço social, e hoje sou integrante da equipe de oncologia de Criciúma, em Santa Catarina.

Essa história é real.


Cristiano Zanetto de Matos
 
e Dilucas





































































































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Publicado em 28 de Novembro de 2018

Atualizado em 07 de Dezembro de 2018

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