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O Edu e a Dani

 

Eduardo e Daniele, dois jovens com idade na faixa dos 25 anos, ele o mais velho, são servidores do Exército do Brasil na condição de Praças. Ele é Terceiro-Sargento na área de Telecomunicações e Ela, Cabo, na área da Saúde como Enfermeira. Estavam noivos e com data de cerimônia religiosa marcada. Com as economias que juntaram mais um empréstimo que contraíram com prazo de 25 anos para amortizar, compraram uma casa. Um imóvel usado mas muito bem conservado e pintado pronto para morar. Mal tiveram tempo de mobiliar o novo lar formalizaram o matrimônio. Casaram e foram curtir duas semanas de Lua de Mel numa capital do Nordeste. A residência onde passarão a viver fica no Beco do Pedregulho, em Travataí, bairro no subúrbio da Cidade do Rio de Janeiro uma hora distante do Centro. Trata-se de uma rua exclusivamente residencial, arborizada e bem cuidada, com entrada pela Rua Zadar, onde se inicia, mas sem saída ao final, bloqueada por uma rocha imensa ao sopé do Morro Azul. Por ser uma ruazinha curta com apenas 15 imóveis no lado par e 15 no lado ímpar, todos os moradores se conhecem e cotidianamente se cumprimentam. Reunidos em associação eles solicitaram e logo foram atendidos pela Prefeitura, que autorizou a instalação de grade e portão de ferro na entrada do Logradouro. - Com muita propriedade o Beco, agora, podia passar a ser chamado de Condomínio Morro Azul, disse um residente entusiasmado. Outros também gostaram e aprovaram a ideia, mas nada ficou decidido.

Em todas as demais ruas do bairro os lotes têm área própria de 225m² ou mais, no Beco do Pedregulho eles têm somente 60m². São os únicos com dimensões tão reduzidas. Por esse motivo, as casas, coladas uma nas outras devido a extensão limitada do terreno, parecem geminadas, e nenhuma delas tem quintal ou área aberta, ainda que mínima. Para compensar a falta de espaço horizontal, os proprietários cresceram suas casas na vertical, e cada uma tem dois ou três pavimentos. Além do mais, são imóveis conservados com excesso de zelo, o que ajuda a manter o patrimônio sempre muito valorizado. Orgulho dos moradores.

Afora o tamanho minúsculo dos lotes, outra peculiaridade interessante no local diz respeito à acústica, que reproduz qualquer vibração com muita fidelidade e compromete acintosamente a privacidade dos moradores. Quando alguém produz algum som em sua casa, este reflete automaticamente na casa ao lado tanto da esquerda quanto da direita com a mesma nitidez e a mesma intensidade. É como se vizinhos de parede contígua estivessem compartilhando o mesmo cômodo. E dependendo da altura do ruído, que nem precisa ser um fogo de artifício, o som pode chegar ao morador da frente no outro lado da rua estreita muito facilmente, ou propagar para além dos limites do portão e da grade de ferro. Talvez isso explique o tom de voz suave nas conversas, o respeito mútuo, o silêncio agradável e a tranquilidade geral na comunidade. Até os bichos de estimação, ensinados pelos seus donos, ao que parece, vivem como se não existissem. Raramente um cachorro late, dificilmente um gato mia e o canto de passarinhos que se ouve, são os da própria natureza que povoam as árvores nas calçadas.

Sexta-feira, 8:45hs da noite. Passados 26 dias das férias conjuntas em viagem de Lua de Mel pela cidade de Fortaleza, num passeio repleto de aventuras, os recém-casados finalmente retornaram para inaugurar o novo lar. Na próxima segunda-feira, quando terão terminado os 30 dias de férias, os dois, cada qual na sua própria base militar, têm por obrigação compor a formatura diária as 7:00hs da manhã. Restavam-lhes então apenas 2 dias disponíveis para pôr em ordem as coisas simples do dia-a-dia dentro de casa. Organização fundamental para uma boa convivência humana. Era necessário montar alguns móveis, achar um lugar adequado para guardar os pratos, os talheres, as toalhas de mesa, os panos de prato, comprar material de limpeza, encher a dispensa, a geladeira... Tinham que arrumar os armários nos quartos, guardar cuecas e meias, calcinhas e sutiãs, sapatos e sandálias... Sem esquecerem-se de ajeitar também o banheiro, pendurar toalhas de banho e de rosto e de mãos, guardar escovas de dente, aparelho de barbear... Sabiam que aquela era uma missão de guerra sem direito a medalhas; por terem prorrogado a viagem de comum acordo, eles nem discutiram o assunto. Ao entrarem no imóvel, logo se depararam com tudo ainda encaixotado do jeito que deixaram, e sem a menor comoção, trocaram apenas olhares abatidos. Deliberadamente evitaram mexer em qualquer coisa que não fosse o estritamente necessário. Não tinham forças pra pegar no pesado naquele momento. Famintos dividiram a pizza que compraram no caminho de vinda do aeroporto, em seguida tomaram uma ducha morna e se deitaram. Dormiram, mas não se livraram do cansaço da viagem. Embora sentissem o corpo pesado, levantaram da cama nas primeiras horas do amanhecer de Sábado. Determinados e valentes, como manda o regime militar, imediatamente começaram a lida, que foi extremamente árdua durante todo o dia. À noite, na madrugada de Domingo, escalonaram um intervalo de sono; amanheceram laborando cedo; à tarde, após o almoço, faltava-lhes força para continuar. Com os corpos pesando meia tonelada cada um, decidiram parar com a arrumação e descansar. Afinal precisavam recuperar as energias pra chegarem com disposição na volta ao emprego. O arranjo precário interrompido no meio do caminho deixou muitos objetos espalhados pelos cômodos sem um lugar apropriado onde guarda-los. Como não esperavam receber visitas nos próximos dias, acordaram que, na prática da convivência diária ajeitariam todo o resto, e se acomodaram no quarto pra dormir. Estiraram-se na cama felizes com a paz e o sossego do local que escolheram para morar. Um silêncio...

Na Segunda-feira eles entraram na rotina do trabalho ainda ignorando seus vizinhos. Não tiveram tempo nem condições para interagir e conhecer os hábitos dos antigos moradores, e foram tocando a vida. Saíam para o serviço nas primeiras horas da manhã sem que um único residente lhes cruzasse o caminho até transporem o portão de ferro na entrada da rua; retornavam, à noitinha, apressados, focados na organização sempre inacabada dentro de casa e nas inevitáveis tarefas que se somavam, do tipo: lavar roupa, fazer comida, limpar o chão... O final de semana já se aproximava de novo e poucas vezes o casal se deparou com alguém do local, e quando isso aconteceu, houve apenas um cumprimento apressado entre ambos.

Na manhã de Sábado Eduardo acordou sentindo-se leve, bem disposto, transbordando de energia e com muita vontade de fazer sexo; levantou da cama e seguiu direto para o banheiro, esvaziou a bexiga e voltou pro quarto excitado. A patroa, de bruços, ainda dormia seu ultimo sono. Novamente o marido deitou-se na cama de costas ao lado da esposa e, serenamente, para não causar-lhe um susto ao acordá-la, apalpou-lhe o bumbum. Ela continuou ressonando baixinho. Tratando-a com carinho ele suspendeu sua camisola, passou a mão nas suas nádegas alisando-lhe os glúteos, desceu até o encontro das pernas e depois, delicadamente, subiu a mão de volta deslizando-a vagarosamente sobre a pele macia. Daniele silenciou e mexeu-se sem acordar. Eduardo então achegou-se comprimindo-a levemente, e dessa vez a esposa despertou completamente. Percebendo-a acordada ele girou o corpo, abraçou-a pelas costas e moveu uma perna sobre as suas. Ela, que também sentia a carência desses contatos, entregou-se por inteiro aos desejos eróticos do marido, e avançaram juntos nos afagos mútuos cada vez mais excitados. Algum tempo depois, o vizinho da casa à direita, que fazia a contabilidade das suas contas sentado à mesa da sala, ouviu o que parecia ser o uivo de um animal grande. Apurou os ouvidos e esperou que se repetisse. O filho adolescente sentado no sofá brincando no vídeo game, disse: - Pai, o senhor ouviu isso? Inesperadamente repetiu-se o ganido, agora, mais prolongado e mais alto também, o suficiente para ser percebido pelos vizinhos mais próximos do outro lado da rua. A moradora de frente lavava o chão da garagem e mantinha o portão aberto enquanto empurrava a água pra rua com uma vassoura. Ao ouvir o que pareceu-lhe ser um gemido de cachorro, caminhou até a calçada e procurou ver se havia algum animal solto por perto. Outro ganido, esse mais sentido, ecoou pela rua afora. Foi a vizinha, na casa à esquerda do jovem casal, quem apareceu e, da sua janela, no segundo pavimento, apontou para a residência ao lado informando à amiga na calçada que os novos moradores estavam transando. Ao ser avisada a mulher não se conteve e começou a sorrir. A da janela tapava a boca com as mãos para não gargalhar. Outros apareceram querendo compreender o que estava acontecendo naquela rua até agora tão carente de novos eventos. Na medida em que iam desvendando o mistério ficava mais difícil de reprimirem o sorriso inevitável, principalmente quando os ganidos se repetiam. Dentro de casa, a filha mais velha da senhora na calçada ria de se contorcer; o garoto sentado no sofá largou pro lado o brinquedo, caiu no chão da sala e rolava de um lado para o outro de tanto que ele ria. Devido a algazarra que se formou alguns cachorros da vizinhança latiram; um deles, porém, uivou em resposta. Bastou. A risadagem multiplicou-se aqui e acolá num repertório digno de constar no livro dos recordes. E a risada mais excêntrica de alguns acabava provocando o gargalhar de outros, numa ação contagiosa que deixou muita gente passando mal com dores na barriga, embora ninguém tenha ido parar no hospital.

Foi sim uma manhã de risos descomedidos que marcou definitivamente a vida dos dois protagonistas nesta história. E a repercussão foi tão grande que, depois desse dia, os moradores passaram a cumprimentá-los como se já fossem íntimos. O Edu e a Dane, como são conhecidos hoje, ainda entram e saem na rua de cabeça baixa, mas já estão superando a experiência desagradável. A vida segue seu caminho...
 
 
Dilucas












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Publicado em 24 de Fevereiro de 2019

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