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Contos de "Vampiro: A Máscara" — Clã Malkaviano

            Pela terceira noite seguida Marco continuava vendo fios brancos saindo da cabeça das pessoas; os fios não tinham fim, pareciam tocar o céu de tão longos. A chuva dificultava enxerga-los, mas eles continuavam lá, bastava Marco limpar a água dos olhos e prestar atenção que lá estavam eles, mesmo quando seus cabelos molhados açoitava seus olhos. A tremedeira causada pelo frio também complicava a visibilidade, porém, lá no fundo do coração morto, Marco sabia que os fios continuavam cada um sobre a cabeça das pessoas como no dia anterior, e no anterior ao anterior.

            A sede tinha a personificação de centenas de milhares de agulhas perfurando cada centímetro do frio e pálido corpo de Marco, não era do feitio dela esperar, não havia negociação com a besta quando ela desejava sair.

            O que estou esperando?

            Àquela altura as presas de Marco já estavam para fora involuntariamente, coisa que ele sequer sabia ser possível. Não teria sido ele mesmo quem as expôs? Se foi, não lembrava; seus olhos só conseguiam ver fios brancos. Ao dobrar uma esquina — completamente ensopado, os sapatos emitindo um barulho emborrachado — esbarrou numa mulher, fazendo-a derrubar o guarda-chuva.

            Desculpe-me! — abaixou-se, pegou o guarda-chuva e devolveu à moça. Ouviu um “Tudo bem!” ao tropeçar as mãos, até perceber que o fio que dançava sobre a cabeça dela não era branco como os outros, mas estava banhado em vermelho-sangue. Os olhos de Marco brilharam como se fossem vivos, até mais que quando ele mesmo era vivo; sentiu um ímpeto vulcânico tomar sua consciência e as milhares de agulhas perfurar constantemente sua pele, entrando e saindo em velocidades distintas. Subitamente toda a avalanche de sensações foi perdendo força ao passo que a mulher se afastava. Concomitantemente, o fio de tonalidade avermelhada ganhou um aspecto pálido até finalmente perder toda a tonalidade sanguínea.

            O que estou esperando?

            Deixou que a mulher continuasse em seu caminho, não era mais uma escolha viável, ao menos não naquela noite. Voltou a atenção para o novo caminho e se deixou levar, passando por uma banca de jornal cujo um deles tinha estampado na primeira página: “Homem é encontrado morto no metrô. Causa da morte: todo o sangue foi drenado de maneira estranha e inexplicável.” Marco não deu muita atenção, mas soube de imediato o que havia acontecido.

            Algum tempo havia se passado desde seu despertar, porém, Marco continuava procurando algo que nem mesmo sabia direito o que era. Sim, ele estava com fome, mas era diferente, ele sentia que precisava esperar o momento correto. A chuva não estava mais tão forte como antes, apesar do frio não ceder um minuto sequer. A cada nova esquina ele sentia que o momento estava próximo, ele estaria no lugar que deveria estar, fazendo o que deveria fazer, recebendo o que merecia. Foi na última esquina, abaixo de um letreiro em neon lilás e rosa, tão cegante quanto a luz do sol, que um choro encheu o seu corpo com o aviso: você chegou.

            Não preciso procurar mais.

            Encostada na parede do que parecia ser a entrada de uma boate estava uma jovem, cabelos escuros e pele pálida, um total contraste; ela chorava desesperadamente, a maquiagem escorria em lágrimas escuras. Marco olhou diretamente para o fio sobre a cabeça da moça: vermelho-sangue. A besta urrou dentro de Marco para sair, estava faminta e não iria esperar nem mais um minuto sequer.

            — Você está bem?

            A garota, pega de surpresa, recuou assustada. Marco não estava lá apresentável, mas tinha um sorriso terrivelmente empático.

            — Não muito... — os olhos dela se fixaram no chão.

            Marco se aproximou devagar, apenas dois passos foi o suficiente para quase tocar na jovem, apesar de não ter intencionado nada.

            — Não sei o que houve, mas, às vezes, chorar nos faz bem — essas simples palavras foram o suficiente para que a jovem desesperada caísse num choro tão desesperador quanto antes; ela estava incontrolável, soluçava constantemente, as lágrimas jorravam como fonte, seu nariz escorria freneticamente e, inesperadamente, avançou sobre Marco, abraçando-o com força como uma filha abraçando um pai.

            Tranquilo com toda aquela cena, Marco aceitou o gesto dando alguns tapinhas nas costas da garota seguidos por algumas palavras: “Vai ficar tudo bem”. Olhou ao redor desconfiado, mas não havia ninguém naquela região, principalmente naquele horário. Não precisou de muito esforço para cravar as presas no pescoço delicado da garota, muito menos para rasgar a pele dela; a medida que o sugava, Marco sentia uma tristeza profunda que lhe dava satisfação corporal e mental, talvez até espiritual; a jovem, por sua vez, tremia de leve, e Marco pôde sentir o cheiro azedo e quente subir quando a urina escorreu entre as pernas dela. Marco então teve uma ereção como jamais conseguiu; algo efêmero, mas tão intenso quanto o primeiro alimento do dia.

            Antes que fosse além do seu limite, retirou as presas da garota com pesar, lambendo a região em seguida, cobrindo a ferida sem deixar rastros. Por alguns segundos longos, não havia sinais de consciência na garota, ela era uma boneca de carne e osso. Aquele era o tempo sobrenatural para sumir que a caçada permitia, e Marco assim o fez: desapareceu na escuridão ali próxima. Quando retornou do mundo nublado da caça, a jovem de nada lembrava, nem de sua tristeza, nem de Marco, nem do porquê estava ali. Precisando dar um sentido racional, deduziu que estava na boate e precisava tomar um ar, e gora era hora de voltar para aproveitar o resto da noite.

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William Torquato
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William Torquato
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Publicado em 13 de Setembro de 2019

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