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Mutação pelo Sangue

          Quando Melissa reiniciou a caminhada após a terceira parada para descanso, não percebeu que parte do caminho estava coberto por lama e, sem aviso, pisou com violência na armadilha invisível. A lama era espessa, úmida e profunda, tinha cheiro nauseante de mato com esgoto nada agradável. Assustada, gritou por ajuda tentando segurar em Guilherme que estava logo atrás. Melissa sentia a textura esponjosa e úmida atravessar sua calça, imaginava o cheiro se impregnando em sua pele e sentia ânsia. A profundidade que a perna de Melissa estava não permitia discernir o quão profundo era aquele lamaçal; talvez fosse profundo o suficiente para engolir um homem inteiro — talvez até mais. Em poucos segundos metade do corpo de Melissa já estava submerso, enquanto Guilherme tentava, desesperado, impedir que a outra metade também fosse engolida.

          Após um longo tempo se esforçando, Guilherme conseguiu retirar Melissa — a lama havia ultrapassado a altura dos seios de Melissa àquela altura — com um galho jogado por ali; ela chorava bastante, o alívio em seu rosto pálido se misturava com o desespero de encarar a morte de frente; nem mesmo os belos olhos castanhos suportaram a indiferença do destino, perderam o norte devido ao medo.

          — Você está bem, Melissa? — Guilherme deu a volta para alcançá-la, segurando-a contra o próprio corpo, afastando-se para longe da lama. Guilherme estava suado e ofegante, o medo também estava expresso em seu rosto, principalmente nos olhos, arregalados por detrás das lentes arredondas dos óculos; a boca com gosto amargo ficou seca. Melissa estava tão atordoada que não falou nada, na verdade ela não conseguia falar nada, apenas chorava balançando a cabeça; Guilherme resolveu não fazer mais perguntas, mas continuou procurando ferimentos na perna e no resto do corpo de Melissa, porém não encontrou nada, ela estava fisicamente bem. Pegou-a nos braços, Melissa agarrou o pescoço de Guilherme por instinto, e saiu à procura de um local para montar a barraca novamente. Melissa não era pesada, Guilherme poderia continuar com ela nos braços por horas, chegariam ao fim da trilha naquele mesmo dia na verdade, mas Melissa não iria gostar; passado o susto, ela ficaria chateada com Guilherme por tê-la tratado como criança, era sempre assim desde a adolescência. Poucos metros à diante encontrou uma pequena clareira que serviria para descansar. Deixou Melissa recostada numa rocha e voltou para buscar sua mochila, todo aquele alvoroço fez Guilherme largar o equipamento para ajudar a amiga.

          Não demorou muito para Guilherme encontrar o que procurava, não havia vegetação alta no local e ele lembrava, mais ou menos, onde havia deixado cair a mochila. O calor e a umidade da floresta castigavam desde o primeiro dia, mas Guilherme acreditava que com o passar dos dias seu corpo iria se acostumar com o ambiente... ledo engano. O suor escorria constantemente de sua testa, assim como ensopava suas roupas; os óculos embaçavam por causa disso, forçando Guilherme a limpá-los várias vezes ao dia. Muito irritante.

          — Droga de floresta!

          Ao recolocar os óculos, bem de relance, Guilherme percebeu algo diferente no lugar, era pequeno e bastante simplório, mas se destacava da lama escura. Com pétalas vermelho-sangue, uma belíssima flor de caule longo havia brotado no exato lugar onde Melissa havia fincado sua perna. O grosseiro lamaçal era um contraste com a delicada flor, uma união estranha, inapropriada, quase incestuosa para quem olhava. Guilherme limpou novamente os óculos para ter certeza que aquilo não era uma mancha aleatória na lente como geralmente acontecia, mas, para sua surpresa, a flor continuava lá, era real. Esqueceu de imediato que aquilo não fazia sentido e foi em direção a ela, atraído por um sentimento confuso de desejo; queria ela para si, no entanto, não conseguia alcançar com as mãos por mais que tentasse; os pés deslizavam para dentro do lamaçal sempre que se esticava, deixando seus sapatos cada vez mais sujos; Guilherme precisaria de algo comprido para alcançar, algo resistente para atravessar o espesso lamaçal. Lembrou do galho usado para salvar Melissa; olhou ao redor em busca e, para sua sorte, ainda estava próximo, apesar de escondido num arbusto. O calor aumentava e a umidade causava sensação de abafado; o suor na testa de Guilherme estava mais frequente apesar de não ser o suficiente para o impedir de fazer o que queria fazer.

          Ficou alguns longos minutos agachado, de quatro, tentando desesperadamente retirar a flor com o galho, estava fascinado por sua beleza, mas a lama era tão grossa que não cedia, mesmo úmida. A ponta do galho rodeava a base, Guilherme queria arrancá-la com a raiz, mas não conseguia. Em certo momento o galho tocou com violência na parte de cima da flor e um forte pólen avermelhado — muito semelhante à gotas de sangue, porém secas — pairou no ar. Um intenso odor adocicado tomou as narinas de Guilherme; era quente e úmido, ele pôde sentir até mesmo na pele a temperatura de seu corpo subir e o suor aumentar. Não apenas isso, uma forte sensação de alegria e otimismo preencheu seu corpo e um largo sorriso se formou, iluminando seu semblante. Guilherme era externamente outra pessoa, não resmungava mais sobre o calor ou os mosquitos, nem tinha a cara emburrada por causa disso.

          Levantou-se sem dar mais nenhuma atenção à flor, as mãos e os joelhos sujos, os sapatos antes cinzas estavam imundos devido a lama; sorria como uma criança, a floresta tinha se transformado em algum tipo de atração nova, olhava para tudo atentamente e gargalhava alto sem nenhuma timidez ou pudor. Guilherme era realmente outra pessoa.

 

* * *

 

          Já era noite quando Guilherme acordou dentro da barraca, Melissa não estava ao seu lado e sua cabeça rodopiava sem motivo. Permaneceu um tempo sentado na tentativa de organizar as ideias; a lamparina estava com a luz baixa, no entanto, olhar para ela era como se centenas de agulhas perfurassem seus olhos.

          — Melissa...

          Tentou realmente gritar, mas a voz não obedecia a sua vontade. Decidiu tentar outra uma vez, mas não conseguiu.

          A força que Guilherme imprimiu para gritar fez seu corpo inteiro, em questão de segundos, arder em febre de uma hora para a outra, além da dor dilacerante em seu abdômen que obrigou Guilherme mudar o grito por Melissa por outro de completo sofrimento. Jogou-se no chão por instinto, rolando de um lado para o outro segurando a barriga com as mãos; as pernas encolheram em posição fetal. Tamanho era o sofrimento que todo o orgulho e vergonha acumulados desde a infância sumiram e, por fim, Guilherme chorou sincero; as lágrimas jorravam como o fluxo de um rio forçando-o a se debater a cada sensação de queimação, dilaceração e perfuração.

          Inexplicavelmente as lágrimas foram mudando de cor, estavam mais escuras e viscosas, ganhando cada vez mais um tom avermelhado. Em poucos minutos não eram mais lágrimas, mas puro sangue; seus olhos estavam completamente vermelhos, irritados por expelir o que não era natural para eles.

          Guilherme passou o dorso das mãos para limpar as “lágrimas”, até aquele momento não havia percebido, confuso demais por causa da dor. Apoiou as mãos no lençol para se levantar e notou a mancha vermelha marcada no tecido. Sangue?, pensou, confuso, o cenho enrugado confirmava. Os olhos castanhos se arregalaram quando Guilherme viu suas mãos sujas com o próprio sangue.

          — Sangue?! Sangue! — bradou tentando limpar as mãos na própria roupa, o horror estava estampado em seu rosto. — MELISSA! — finalmente a voz saiu.

          Sentiu o corpo arder outra vez e sua pele ficar rosada, o que não havia acontecido antes (ou aconteceu e Guilherme não percebeu por causa do sofrimento?). O corpo perdeu forças mais uma vez e Guilherme desabou novamente; deu para ouvir o som abafado do corpo caindo sobre o saco de dormir; a dor no abdômen retornou muito pior, mais violenta, as vísceras pareciam se digladiar por espaço. O formigamento no resto do corpo também era uma novidade, cansava coceira e dormência momentânea. Guilherme perdia constantemente o movimento das pernas e braços, recuperando logo em seguida, segundos depois. O sangue escorreu pelos olhos como antes, mas também pelos ouvidos. Finalmente Melissa entrou, ofegante:

          — Guilherme! O que houve?! Guilherme! — encontrou-o caído, ensanguentado e gritando de intenso sofrimento e dor; Guilherme gritava tão alto e com tamanha força que muitas vezes engasgava com a própria saliva. — O que aconteceu?! Você se feriu? — os olhos de Melissa se encheram de água. — Pelo amor de Deus, Guilherme, o que aconteceu com você?! Fale comigo! — somente gritos de dor, isso era tudo que saía da boca de Guilherme que ainda se contorcia, rolando, balançando freneticamente em seu tormento.

          Melissa tentava impedir Guilherme de se mover, segurava-o pelos ombros com toda sua força, os dedos finos e pálidos coravam por causa da pressão que as mãos exerciam e, apesar do notório esforço, Guilherme era mais forte que Melissa, facilmente se desvencilhando, jogando-a para longe repetidas vezes.

          — Eu vou buscar água! — correu para o lado de fora da barraca ofegante; lágrimas caíam de seus olhos assustados e confusos, estava claro que Melissa não sabia o que fazer, mas não demonstrava ter desistido de ajudar Guilherme de alguma forma.

          Melissa retornou com uma garrafa de alumínio que encontrou em sua mochila, possivelmente Guilherme a colocou lá por precaução, ele a conhecia bem, Melissa tinha uma péssima memória. Ao passar correndo próximo à fogueira, os cabelos estavam grudados no suor da testa, as mãos sujas de terra significavam que Melissa tinha realizado algum tipo de trabalho braçal, possivelmente buscar lenha para a fogueira.

          Adentrou à barraca sem modos, oferecendo a garrafa a Guilherme que, estático, não respondeu; parecia dormir. Melissa segurou a nuca de Guilherme e ergueu sua cabeça e ombros, usou suas pernas para apoiá-lo: — Guilherme? Aqui... trouxe água — não houve estímulo — Guilherme? — ele estava frio, a pele mais pálida que o normal, muito diferente de poucos minutos atrás; não havia respiração, muito menos qualquer sinal de movimento. Guilherme estava morto.

          Ver Guilherme morto empurrou Melissa no abismo de desespero constantemente próximo desde o primeiro contato com o sofrimento do amigo. Jogou-se sobre o corpo dele, agarrava-o com força, não queria aceitar aquele fato, não podia, era apaixonada por ele desde o ensino médio e aquele passeio na floresta Amazônica seria o momento ideal para Guilherme lhe pedir em namoro; era isso que Melissa estava esperando. Mas agora estava sozinha, perdida e sem seu amado.

 

* * *

 

          À noite estava bem mais escura sem a luz da lua coberta por uma nuvem pouco convidativa que pairava sobre o acampamento improvisado; também estava mais fria, e o frio trazia com ele uma fina neblina que dançava por entre as árvores e arbustos. Melissa estava sentada próxima a fogueira, as pernas dobradas junto ao peito, tinha o semblante opaco, sem expressão, os olhos fitavam o nada em busca de algo ou alguém; duas esferas cristalinas de cor castanha vazias de sentido. O calor do fogo não era o suficiente para aquecê-la, faltava algo, faltava a risada estridente de Guilherme, seus resmungos sobre mosquitos, sua dedicação em puxar a orelha dela quando esquecia alguma coisa importante, enfim... faltava a presença, a existência plena de Guilherme ao seu lado.

          Melissa foi puxada de seus pensamentos por um ruído dentro da barraca, alguma coisa havia batido na lamparina pendurada. Olhou por impulso, confusa, tentava organizar os pensamentos. Apesar da fogueira, o breu continuava intenso, não dava para saber o que era, talvez um bicho tivesse entrado para pegar comida. Melissa se inclinou para tentar enxergar melhor, até forçou a visão o melhor que podia coçando os olhos vez ou outra, mas estava escuro demais. A barraca sacudiu outra vez e foi possível ouvir um gemido:

          — Guilherme? — Melissa avançou devagar, cada passo a fagulha de esperança em ver Guilherme vivo ganhava força, mas havia também o medo, a incerteza de não encontrar o que buscava. Recuou quando a barraca balançou mais uma vez e novamente ouviu o gemido. Estava próxima da entrada, dava para ouvir a terra sendo arrastada por seus pés pequenos; as mãos tremiam quando Melissa esticou o braço para abrir a barraca.

          Melissa não conseguiu reagir, o choque daquela visão travou suas pernas como duas estacas fincadas no solo: Guilherme estava devorando o que parecia ser um javali de tamanho pequeno. O estômago do bicho completamente aberto enquanto Guilherme comia as tripas, vísceras e órgãos do animal. Ainda mais chocante era a aparência de Guilherme totalmente diferente: o cabelo havia caído e a cabeça crescido metade do tamanho normal, no lugar de orelhas dois orifícios pequenos, os dedos das mãos não existiam mais, transformados em tentáculos verde-lodo que se juntavam formando um, enrugado e molhado com algum tipo de gosma transparente. Aquela coisa devorou tudo que havia dentro do javali deixando apenas a carcaça. O som da coisa mastigando causava náuseas, atiçava a imaginação às piores memórias de alguém; o cheiro forte de ferro, misturado com aquela visão, fez Melissa balançar de tontura em alguns momentos.

          — Gui... — os dentes de Melissa batiam devido ao medo e também o frio, e apesar de não conseguir pronunciar o que desejava, a coisa sentiu sua presença e reagiu. Voltou-se para Melissa devagar, deu para ouvir os ossos estralando durante o movimento. O horror no rosto de Melissa transbordou ao ver a face do que um dia foi Guilherme: não havia mais os olhos, apenas dois orifícios estreitos e próximos no que antes era a testa; abaixo dos orifícios havia uma imensa boca sorridente amontoada com dentes igualmente grandes e nitidamente afiados. O sorriso era desproporcional ao resto da cabeça, tinha pedaços de carne e tufos de pelo do javali entre os dentes; uma baba viscosa escorria pelos cantos da boca. Os tentáculos se moviam freneticamente como chicotes, sacudindo para todas as direções. A coisa parecia não ter total controle sobre eles, aparentemente.

          Paralisada pelo medo, Melissa urinou nas roupas ao ver aquela abominação. As pernas tremiam de tal forma que foram enfraquecendo até Melissa cair sentada. A coisa caminhou em sua direção, os tentáculos chicoteavam tudo que encostava, a gosma transparente jorrava a cada movimento.

          Os instintos de Melissa lhe diziam para fugir, que seria morta por aquilo e que devia fazer algo. Buscou forças para sobreviver, primeiro usando a voz: gritava por socorro como jamais havia gritado em toda a sua vida; depois, nos movimentos: se arrastando para longe da coisa o quanto podia... tudo em vão. Lançando um tentáculo para frente, a coisa envolveu a perna de Melissa com força, a gosma escorreu queimando a pele de Melissa mesmo sobre a calça. Seus gritos de dor ecoaram pela floresta espantando alguns bichos, outros respondiam com seus ruídos particulares se comunicando com a bela jovem.

          Os movimentos de Melissa haviam voltado ao normal após a certeza de sua morte, já conseguia se debater para tentar se soltar, os dedos cravados na terra para impedir de ser puxada deixavam pequenas marcas de que ela esteve ali... tudo em vão. Facilmente a coisa trouxe Melissa para perto de si até ambos ficarem “cara a cara”. Melissa chorava, estava enojada com o fedor expelido pela boca da coisa, sentia o medo trazer desespero quando olhava os pedaços do javali presos entre os dentes do monstro; queria vomitar, mas o desespero não dava espaço.

          A coisa aproximou a cabeça do rosto de Melissa e os orifícios acima da boca começaram a fechar e abrir rapidamente, como um animal farejando sua presa.

          A boca da coisa abria e fechava constantemente enquanto cheirava Melissa, parecia degustar com o odor, a língua comprida se debatia dentro da boca liberando mais e mais o líquido viscoso. Melissa tentava parar de chorar, ela realmente queria, mas não conseguia, apenas forçou a si mesma diminuir o som do seu choro, mas a lágrimas continuavam caindo. O rosto inchado era a imagem da vulnerabilidade que Melissa sentia. Quando a coisa parou de farejar, recuando a cabeça para onde estava, as lágrimas de Melissa finalmente secaram com o choque da cena seguinte:

          — Melissa... — disse a coisa — quero um beijo... — a boca abriu toda a envergadura anatômica possível, alguns pedaços do javali até caíram com o movimento, e a coisa avançou sobre Melissa, devorando seu rosto inteiro sem nenhuma dificuldade. Os dentes rasgaram a carne, perfuraram os ossos do crânio como uma faca passando manteiga no pão. A pressão da mordida fez os olhos de Melissa saltarem das órbitas oculares direto para dentro da boca da coisa; a arcada dentária se estreitou ao ponto de as fileiras opostas atravessarem uma a outra. Metade da cabeça, da orelha para frente, foi devorada num piscar de olhos, enquanto a outra metade ficou exposta em carne e sangue. Não houve tempo para gritos.

          Melissa então acordou, assustada, ensopada de suor, tremendo de horror.

          Guilherme não estava deitado, a barraca estava fechada por dentro. A luz amarelada da lamparina atraía alguns insetos que se acumulavam ao redor, alguns caíam sobre as cobertas, entravam nelas; Melissa odiava isso.

          — Foi só um pesadelo... — disse a si mesma.

          Melissa! Vem cá! Quero te mostrar uma coisa!

          A voz de Guilherme parecia distante e alegre, mas Melissa estava sem vontade de sair da barraca.

Rápido, Melissa! Você vai perder!

          Guilherme insistiu, sua voz continuava a expressar alegria, o tom era alto e ofegante. Melissa suspirou, realmente não queria sair da barraca, aquele pesadelo a tinha deixado muito perturbada, mas resolveu atender o chamado por consideração ao amigo. Tirou a calça jeans e depois o suéter, mas continuou com a mesma roupa íntima, sua pele pálida realçava o preto delas. Melissa tinha o corpo bem feito, as curvas na medida certa, a textura de sua pele era suave e de fácil irritação, notava-se as marcas vermelhas causadas pelas picadas dos mosquitos ou a vermelhidão numa das coxas e no pé ao ter encostado em alguma planta.

          Fechou a jaqueta antes de sair, estava frio lá fora, dava pra sentir dentro da barraca. Desceu o zíper que a fechava, primeiro colocando a cabeça para fora, depois o resto do corpo. Melissa não encontrou Guilherme, o que era estranho, a voz dele não parecia tão distante assim.

          — Guilherme? — gritou pelo amigo, mas não obteve resposta de imediato. Achou estranho. Deu mais alguns passos em direção à fogueira, estava frio. Tentou chamar Guilherme outra vez:

          — Guilherme! Se for uma brincadeira, não tem graça! Apareça! — novamente sem resposta — Já que é assim, vou voltar pra barraca! Não estou afim dessas brincadeiras! — Melissa estava falando sério, ela não estava gostando da brincadeira.

          Colocou as mãos nos bolsos por causa do frio, tinha aumentado de repente, virou para entrar na barraca, mas parou. A um palmo de distância dela estava a coisa, os tentáculos sacudindo e o bafo fedorento jogado em seu rosto enquanto a baba viscosa escorria.

          — Quero um beijo, Melissa! — disse a coisa abrindo a boca ao máximo, assim como no sonho, devorando o rosto inteiro de Melissa num piscar de olhos de tão afiados que eram os dentes.

          — Quero outro beijo, Melissa... — e devorou Melissa até o último pedaço.

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William Torquato
Escrito por:
William Torquato
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Publicado em 05 de Outubro de 2019

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