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CREPÚSCULO NA ROÇA


 

Cai a noite, aves recolhem-se, urubus revoam,

Iniciam a descida aos altos galhos dos mulungus.

Pios de corujas famintas ressoam,

Já não se ouvem os sons dos cururus.

 

Vampiros sedentos se espreguiçam,

Tumbas se agitam nos cemitérios,

No riacho carros de bois enguiçam,

E os bovinos soltam gases deletérios.

 

No céu prenuncia-se noite enluarada,

Será lua cheia, coisa ruim se verá.

Mantenham a casa toda fechada,

Tem lobisomem e a mula sairá.

 

Veja a palha benta, o terço, o bentinho,

O chupa cabra, de certeza aparece,

Acenda a vela, recorra ao meu padrinho,

Não esqueça de rezar uma prece.

 

Ouvi essas histórias quando menino,

Curtia férias na casa de meus avós.

Ia dormir bem encolhido, pequenino,

Jesus, protegei-nos a todos nós.

 

Somente ao amanhecer tinha sossego,

Não tinha leite, as cabras secaram,

Com o coletivo medo, faltou-lhes apego,

Até os filhotes com fome ficaram.

 

Crendices da roça, lá nos sertões.

Diferentes das urbanas crenças.

Histórias contadas nos serões,

Piás atentos, curiosidades imensas.

 

Doces tempos de minha infância,

Lembro deles com saudade.

‘Inda hoje ecos em ressonância,

Me lembram u’a vida sem maldade.

 

Quem não lembra da infância já ida!

Doces dias sem TV, “internete”.

Doces lembranças, da memória perdida,

Só as boas, do tempo de pivete.

 

Vocabulário

Mulungu – árvore nordestina,

Cururu – sapo cujo nome científico é bufus marinus.

Vampiro – ser chupador de sangue, espécie de morcego

Deletério – nocivo

Lobisomem – homem lobo. Lenda europeia trazida para o Brasil

Mula – refere-se a mula sem cabeça, ser mítico que saia durante as noites soltando fogo pelas ventas.

Palha benta – palha benzida no domingo de ramos. Católicos da zona rural acreditavam que afastava as coisas ruins.

Bentinho – escapulário de N. S. do Carmo.

Chupa cabra – ser que suga o sangue de cabras. Folclore do sudeste.

As cabras secaram – não deram leite.

Meu padrinho – Pe. Cícero; um santo informal nordestino.

Piá – criança, termo do sul do Brasil.

 

Análise


Utilizei-me de intertextualidade para lembrar, em versos soltos, minha infância misturando lendas europeias com mitos do folclore brasileiro. Ao me referir a vampiros sou dúbio, pois posso estar falando de um tipo de morcego, o hematófago, ao vampiro de Bram Stoker, um romance sobre um ser mítico da Transilvânia, nos Bálcãs europeus, tema muito explorado pelo cinema.
No primeiro verso mostro recordações do entardecer no campo, sugerindo que os animais selvagens são os primeiros a se recolher e a silenciar, não esquecendo a presença da coruja, ave que caça suas presas á noite.
No segundo verso deixo entregue a imaginação do leitor ligar à história o morcego hematófago ou o vampiro morto-vivo do folclore europeu. Na segunda estrofe é de supor-se que esteja me referindo a crendice popular de que os tatus-peba costumam invadir túmulos a procura de alimento e que a noite se sentem seguros para sair ao ar livre e voltar para a toca.
Quanto aos gases deletérios lembro que bovinos emitem gases que auxiliam a ampliação do efeito estufa ao contribuir para a diminuição da camada de ozônio na atmosfera.
Noite de lua cheia no imaginário popular é noite propícia a homens virarem lobisomens e mulas sem cabeça saírem correndo e soltando fogo pelas narinas. Os livros de Câmara Cascudo dão mais informações sobre essas crendices e suas origens.
Ao fim do poema comparo minha infância de brincadeiras e histórias, com a realidade dos dias de hoje: crianças com olhos pregados na televisão ou na tela do computador navegando pela Internet, no tablet, smartphone, viciadas em jogos ou WhatsApp.







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Paulo C Freire
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Paulo C Freire
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Publicado em 30 de Dezembro de 2019

Atualizado em 30 de Dezembro de 2019

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