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IDEIAS CONTRÁRIAS NÃO RIVALIZAM OS AUTORES


O diálogo que se apresenta é a prova da possibilidade de duas pessoas de opiniões políticas discordantes dialogarem com a devida firmeza sem a tensão que caracteriza a maioria das discussões do gênero. Na dinâmica das conferências, o respeito ao indivíduo não se mistura com as divergências retóricas. Quem se antagonizam são as ideias, não as pessoas.

 Salienta-se, por oportuno, que a interlocução a seguir desenrolou-se sobre a plataforma de comunicação WhatsApp, mantendo-se o formato original da conversa,

em que pese, a opção da interlocutora pela omissão do seu nome, motivo da fictícia Jeane Fraga.

 [2/12/2019 22:50] Jeane Fraga: Edson, veja o resultado das reformas que Paulo Guedes fez no Chile durante a ditadura do Pinochet. Com 81 anos de idade um professor precisa dar aulas particular para conseguir renda suficiente para sobreviver. Essa é a realidade do Chile uns 30 anos depois. Creio que muitos de nós não veremos a situação do nosso Brasil se a política econômica que foi implantada lá, seja repetida aqui.

 [3/12/2019 14:12] Edson de Carvalho: Oi Jeane! Segue o meu pequeno comentário sobre o filme do professor Chileno, um herói que honra também os milhares de professores brasileiros que vivem dramas semelhantes, e  assim o faço em consideração da sua capacidade de juízo justo, comedido e independente.

 Lamentável ver um professor nessa idade ter que trabalhar para a complementação da sua renda; melhor seria se fosse pelo puro e exclusivo prazer de continuar instrumentalizando o desenvolvimento educacional do seu país. Um dia, talvez, eu também terei que abraçar um empreendimento informal para continuar em condições de comprar os meus remédios e pagar o meu plano de saúde. Contudo, caso isso venha a acontecer, me daria por satisfeito se Deus conservar a minha mobilidade e lucidez, como está fazendo com o admirável professor.

 Quando entrei no serviço público, 1976, vigorava a reforma de 67 com aposentadoria prevista a partir dos 30 anos de serviço. Já no mercado desde os 16 e ainda com direito a dois anos de licença prêmio, aos 44 eu bem que poderia ter me aposentado. Absurdo, pois nessa idade eu me encontrava no pico da minha capacidade de trabalho. Todavia, em 1998 veio a reforma do FHC que fixou a idade mínima em 53, seguido pelo governo petista que empurrou o meu esperado ócio para os 60 anos, tempo em que assistia o meu ex-presidente defender a elevação da idade mínima a outros patamares, tendo em vista a expectativa de vida dos brasileiros.

 No começo, ainda nos anos 30, as caixas de aposentadorias e pensões faziam a capitalização para as aposentadorias.  Ainda no Governo de Getúlio Vargas, de olho no dinheiro acumulado, este fundiu tais caixas em grupos, que os chamou de IAPs – Instituto de Aposentadorias e Pensões, e ainda nomeou pessoas da sua “inteira confiança” para administrar essas massas de dinheiro. Começaram então os investimentos em áreas industriais de riscos – as que nenhum empresário queria investir pela iminência de prejuízos, somados às construções de grandes prédios públicos que hoje se vêm abandonados, a exemplo, aqui em Maceió, do Edifício Palmares, Ari Pitombo, Iaptec etc. Em 1966, mais uma grande fusão favoreceu mais desvio de finalidade do dinheiro ainda capitalizado, que deu origem ao INPS com a junção dos IAPs. Depois, em 1978, o seu desmembramento entre INPS, IAPAS e INAMPS, este, com suas atividades descentralizadas para o SUS a partir de 1991, época em que o atual INSS entra em cena em substituição do IAPAS, pondo um ponto final, também no lendário INPS.

Baseados nas nefastas experiências de políticos que se locupletaram do dinheiro da previdência para a promoção das suas campanhas eleitoreiras, haja vista uma previdência que já não tinha o que ser roubado, eles chegaram aos fundos de pensões que pareciam inatingíveis, como: Petrobrás, Caixa Econômica, Previ e Correios que, segundo Paloci, nos governos Lula e Dilma, desviaram mais de oito bilhões de reais, colocando a aposentadoria desses trabalhadores também em risco.

 Enfim, o problema da previdência não reside na forma de provisionamento dos recursos históricos para a garantia das aposentadorias e pensões futuras, mas na capacidade de se governar com transparência diante de instituições fiscalizadoras tecnicamente independentes, num contexto de legislação rigorosa. Se isso acontecer; se o governo atual continuar acreditável e se desvencilhando de ladrões e outros agentes que ainda possuem poderes para atrapalhar as boas ações governamentais, o projeto do ministro, certamente será exitoso. Agora, se o PT voltar ao poder antes que se reformulem os valores éticos e morais que presumem caracterizar a sua liderança atual, então esqueça tudo que falei.

 [3/12/2019 14:33] Jeane Fraga: Obrigada pelo retorno! 

Respeito o seu ponto de vista. Mas penso que a questão de combater a desigualdade com políticas públicas é fundamental para não aprofundar a barbárie própria de um sistema orientado pela economia voraz dos capitalistas e seus representantes. Se esse governo insistir com sua política econômica neoliberal vamos padecer ainda mais do que estamos padecendo. Aqui falo principalmente dos mais necessitados desses serviços públicos.

Quanto a corrupção, ela é estrutural, ou seja, própria de um sistema que vive da expropriação do trabalhador. Expropriação essa que por si, já viola os direitos dos trabalhadores em detrimento de um segmento minoritário que detém o poder econômico. A prática política é uma dimensão que reflete esses determinantes.

 A propósito do roubo da previdência que na análise de renomados cientistas políticos e econômicos era superavitária até agora, com a reforma, deixou mais de seiscentos bilhões na mão do atual governo para usar como bem desejar.

 Para mim, valores éticos e morais está longe de caracterizar o atual governo, pois estes carecem de princípios de equidade, respeito às diferenças, a liberdade de expressão, defesa da verdade e justiça social.

 Bem, deixei aqui alguns dos meus pontos de vista, sem nenhuma intenção de fazer você mudar os seus, mas de situar visões e leituras da realidade diferenciadas.

 [3/12/2019 14:45] Edson de Carvalho Silva: Belo texto Jeane!

A grande vantagem de ser um livre pensador, consiste em não precisar defender quem está no governo, e sim atitudes que dão resultados. E essa questão da exploração capital e trabalho daria um debate de uma semana. Eu começaria falando do que Karl Marx viu quando se inspirou; da interferência dos burgueses na produção artesanal até as evidências da revolução industrial que tanto o inquieto. Acho que se Karl estivesse vivo, ele diria que nada daquilo se aplica nos dias de hoje. Contudo, acho melhor deixar para outra ocasião.

[3/12/2019 14:49] Jeane Fraga: Com certeza Marx teria que estudar para entender os desdobramentos econômicos, sociais, políticos e culturais, pois ele podia adivinhar embora tenha colocado as bases para a análise da sociedade capitalista e avançado até a realidade da época que lhe permitiu.

[7/12/2019 09:11] Edson de Carvalho Silva: Olá Jeane!

Sobre a vossa última consideração, segue o meu parecer. O texto ficou longo para uma mensagem de whatsapp e, caso você não se motive a lê-lo, compreenderei. Pelo menos, esse diálogo está me fazendo muito bem, pois, na minha idade, preciso ter razões para manter meu cérebro em atividade, sobretudo diante de uma pessoa do seu nível de intelectualidade.

 Sobre as proposições de Karl Marx, como falei, se vivo fosse e ainda lhe restasse algum fragmento de honestidade, ele diria indubitavelmente: “esqueçam tudo que escrevi porque nada daquilo se aplica no mundo atual. Na verdade, já não se aplicava em minha época, embora só agora compreenda isso”. “Que o maior erro dos militantes de esquerda (pelo menos os sinceros) é acreditar ser possível alterar a ordem natural das coisas; que o proletário volte a ser o senhor absoluto da sua força de trabalho em detrimento da livre iniciativa e da harmonia entre capital e trabalho”. Utopia.

Quando falo da ordem natural das coisas, refiro-me ao alvo que todo ser humano quer alcançar – a felicidade. Quando um trabalhador se dirigia ao mercado para vender suas manufaturas, o fazia movido pela expectativa de uma boa venda; que angariasse o numerário suficiente para comprar a matéria prima do seu próximo ciclo produtivo e ainda o acréscimo relativo ao valor agregado pelo trabalho investido, retornando-lhe, por último, os demais bens de consumo, num ciclo que se repetiria. Eles erraram apenas no ponto em que deveriam reservar uma parte para se capitalizar. O próprio Salomão já dizia: “O homem sensato tem o suficiente, mas o insensato não, porque gasta tudo que recebe” (Pv. 21:20). Os burgueses entenderam e aplicaram isso, mas o proletário, na sua maioria, ainda carece desse aprendizado.

Por outro lado, os burgueses também em busca do mesmo objetivo, apresentaram-se aos trabalhadores como instrumentos de compras das suas mercadorias visando a revenda com o lucro necessário à satisfação dos seus anseios. Assim como os artesãos que, com trabalho agregavam valor ao material empregado, os burgueses também o faziam com o serviço da comercialização. Até aí, o negócio parecia bom para ambos. Os burgueses não pensavam em capitalismo nem na tal revolução industrial; e os artesãos, por sua vez, estavam felizes por não ter que correr atrás de compradores e assim, ambos pareciam felizes.

O problema só complicou porque os burgueses evoluíram na proporção em que acumulavam capital. O aumento de pessoas interessadas em comprar seus produtos demandou mudanças gradativas nos processos produtivos, a ponto dos artesões perderem a autonomia do processo de trabalho, transformando-se em empregados dos capitalistas. Até aí parecia bom para os antigos artesões, pois eles não precisavam mais sair para comprar suas matérias primas, manter uma oficina de trabalho, e ainda se livrou da tensão de não encontrar comprador.

Na busca por uma produtividade cada vez maior, se introduziu a divisão do processo produtivo onde cada artesão passaria a fazer parte do produto, fragmentando a habilidade, experiência e, aos poucos, a perda do controle dos ciclos, o que favoreceu a substituição destes por um tipo de mão de obra barata, porém não menos eficiente (mulheres e crianças). Foi aí que Karl Marx entrou com suas teorias de litigâncias entre proletários e capitalistas, como se a ascensão do empregado em detrimento do patrão retornasse alguma possibilidade de êxito. Todavia, dentro das informações que ele possuía à época, torna-se compreensível que pensasse assim. Ele não tinha razão, mas era justo que pensasse dessa forma em face do cenário que lhe era disponível.

Na verdade, o pensamento principal de Marx era tão simplório quanto elementar se fazia o sistema produtivo da sua época. Ele atacou a quantidade adicional de produtos fabricados em detrimento do valor que cada trabalhador ganhava por essa produção, ou seja: eles fabricavam 15 pares de sapatos, ganhavam o equivalente a 5, e o restante correspondia à “mais valia” que o “cruel” capitalista faturava em função da exploração dos indefesos trabalhadores.

De fato, Marx morreu, mas sua indignação ainda fertiliza as mentes de uma militância que ainda se diz acreditar numa revolução que já perdeu o prazo de validade; que nunca funcionou nem tirou o trabalhador da bancarrota. Em compensação, saciou a sede de poder de muitos que se tornaram absolutos, transformaram em novos ricos a sua militância mais expressiva, enquanto a classe trabalhadora, desafortunadamente, mergulhava na pobreza, desemprego e ignorância.

Diferentemente, numa economia liberal com participação mínima do estado, cada cidadão é livre para administrar a sua vida, empreender e crescer economicamente. Ele pode ser um mísero trabalhador que teve a prudência de poupar parte do seu salário ou um herdeiro de um capital consistente. Cada um, independente do tamanho do seu negócio inicial, possui em seu favor, um Deus bom e um mundo largo a todos acessíveis. Além disso, essa historia de capitalismo selvagem, relação opressora entre patrão e empregado e voracidade do mercado na busca do lucro serve apenas a políticos de esquerda que necessitam de palanque.

Enfim o sistema torna-se selvagem quando não produz a ampla empregabilidade do cidadão e a culpa não é dos potenciais empregadores, mas do desestímulo em função das obrigações que o estado os impõe. São essas as barreiras que o atual ministro da economia tenta obstruir, que já apresentaram resultados positivos, não obstante a truculência de uma nefasta oposição que tenta empurrar o país para o buraco só para não dar cartaz ao novo presidente.

Pelo dito, a libertação do proletariado se estriba no conhecimento, na formação técnica e num sistema educacional que o faça vislumbrar um universo de possibilidades de crescimento e realizações. É nesse ponto que o estado precisa ser forte, a ponto de implementar políticas educacionais que contemplem o cidadão desde a tenra idade, oferecendo-lhe condições competitivas até diante dos filhos do rei. Mas, esse tipo de gente culta e honesta é mais criteriosa na escolha dos seus representantes; é gente que não se deixa enganar, tampouco se vende por uma cesta básica. Políticos corruptos e sua militância detestam esse tipo de eleitor, e ainda os chamam de fascistas. Por isso que se gastam tanto dinheiro em educação sem que os resultados evoluam.

Finalmente, é como o nosso presidente costuma recitar repetitivamente:

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

[7/12/2019 09:37] Jeane Fraga: Bom dia Edson!

Li seu texto 

No momento não estou com tempo e disposição para responder. O que posso lhe dizer agora é que seu lugar de leitura é diferente do meu. Quem sabe outra hora. Ou seja, temos perspectivas de mundo e interesse de classe bem diferentes. Seu texto está muito bem escrito, mas contém do meu ponto de vista, algumas incongruências teóricas. Que tal você pensar, quando lhe convier, sobre qual interesse de classe Paulo Guedes e o governo Bolsonaro representam e defendem?

Que tal a gente fazer uma reflexão sobre o papel do Estado? Pensarmos se ele é ou não atravessado pelas contradições e interesses de classe? E sobre o trabalho numa perspectiva ontológica ao invés de gnosiológica?

[7/12/2019 14:42] Edson de Carvalho Silva: Positivo Jane!

Gosto de trocar ideias com pessoas que pensam diferentes de mim, sobretudo as que possuem conhecimentos de fontes adversas às minhas, e assim vou melhorando os meus conceitos, sempre em formação.

Mas eu não sou exclusivamente de direita porque sei que na esquerda há muita coisa boa que a direita não tem o direito de descartar, como a intervenção estatal em terras improdutivas e especulativas visando o cumprimento da sua missão social. Não nos termos do MST – muito longe disso. Também não sou da esquerda porque penso de forma liberal e acredito que a libertação do proletário reside também no livre mercado e na iniciativa privada.

Quando estudante de economia, dessequei os 3 primeiros volumes de “O Capital”, mergulhei nos estudos das ciências sociais, filosofia, Ciências políticas, políticas econômicas, formação do estado e até Nicolau Maquiavel. Contudo, confesso que se não o fizesse com raciocínio crítico independente, buscando sempre as comprovações de resultados práticos, hoje eu seria mais um a empunhar uma bandeira vermelha. Valeu! E obrigado por me ouvir. (ou melhor, ler).

[7/12/2019 15:04] Jeane Fraga: Muito bem Edson!

Se o livre mercado com sua mão invisível e privatização é o melhor caminho na sua ótica, trilhamos caminhos de análise divergentes. Aliado a isso, esse reconhecimento de que é um liberal (por caminho independente) me leva a pensar em qual ponto do meu caminho comecei a ser dependente. Garanto que estarei pensando sobre isso e relacionando com a minha atividade prática.

Valeu pela sua honestidade teórico-filosófica! 

Abraços

[7/12/2019 15:45] Edson de Carvalho Silva: Legal Jeane, foi bom ter mergulhado nessas teorias e lembrado do tempo em que me encantei com um punhado de doutrinas, mas que, no decorrer das suas aplicações concluí que eram apenas teorias. Nada mais que isso. Vamos em frente, torcendo pelo Brasil.

[7/12/2019 16:54] Jeane Fraga: Sim

Que a gente veja um Brasil mais inclusivo.

 

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Edson de Carvalho Silva
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Edson de Carvalho Silva
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Publicado em 22 de Março de 2020

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