A moça e poça

Quando o interno para a nos descrever!
A voz em silêncio A voz em silêncio 31 de Julho de 2020

A moça e a poça

Parte 1
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Vinha vagando pela calçada, sozinha, calada, fria. Por outro lado, quente, falante, valente e gritava tanto aos olhos que chegava a sair fogo. Era uma moça muito peculiar, de fato! Não podia deixar de observar seus passos morosos e frágeis em meio ao alvoroço do alísio humano que nem a notava.
Me peguei a imaginar a singularidade que havia ali, diante da minha percepção.
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- Quais seriam seus motivos? - Pensei eu! Um pouco encabulada, talvez, para achegar-se a sua fina existência.
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Foi aí que decidi seguir a dona dos sapatos brilhantes como o céu numa noite sombria.
Passei a descrevê-la a cada rua, a cada ser altruísta que avistava aquela obra de mulher meio cinza e nem ao menos a cumprimentava.
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Alguns minutos depois, notei que em sua mão direita carregava um papel amassado, preso entre seus dedos, disputando um lugar com o ferro daquela armação metálica, flexível e de tecido impermeável, onde se guardava muitas histórias. (O famoso guarda-chuva)
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Na sua mão esquerda segurava duas janelas muito pequenas. Cheguei a pensar que fosse de alguma boneca, eram lindas e brilhantes, cor que lembrava-me o mel do qual eu tinha acabado de desejar. Achei muita coincidência arrastar-me a outro alguém tão desconhecido, mas que aos poucos tomava todo meu conhecimento.
Parte 2
Prossegui e os passos já eram mais lentos do que o normal, não tinha pressa em apreciá-la, apesar de que nada nela trazia uma certeza, e sim dúvidas, muitas dúvidas.
Pensei em falar algo, mas não consegui parar de apenas estudá-la, queria entendê-la. Suas costas pareciam carregar uma baita mochila, mas para o favorecimento do meu questionar, não havia nenhum tipo de bolsa. Apenas um casaco, seco, calado e frio como a dona. Eu, por outro lado, estava encharcada como um abraço ao mar.

Já era um pouco tarde quando a moça parou, eu logo sussurrei a mim:
- Iih! Vou ter que parar para não ultrapassá-la!
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Fiquei completamente travada enquanto aquela sombra feminina, que se aproximava, entregou o papel amassado por sua mão direita e não me disse nada, parecia esperar uma resposta de minha parte.
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Peguei o papel e acabei molhando, não consegui saber tudo que tinha nele, mas lembro-me bem das partes que decifrei ao conseguir enxergar! Eram palavras cruéis, dolorosas, ansiosas e solitárias, pedidos de socorro acompanhados por frases incompletas de uma alma quebrada e que há muito tempo guardava tudo para si. Pobre moça, era infeliz, fugia de tudo e de todos acreditando ser o seu fim. E lá se foi uma das minhas dúvidas.
Parte 3
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Estava chovendo e tudo começou a voltar na mente dela, todas as lembranças que a levaram embora, todas as memórias que a trouxeram, nada fora dos seus pensamentos poderia fazê-la sair dali em silêncio a minha singela presença.
Seus olhos tanto piscavam que já me alertavam sobre o que havia de vir. Sem muita tormenta, abraçou-me devagar como alguém que cheio de medo, não consegue mais se sentir, e mesmo eu estando completamente molhada pela chuva, seus braços continuaram a viver aquilo. Então, senti liberdade de questionar, mas não sabia me expressar tão bem.
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- É difícil ver alguém me abraçar e não levar pelo menos uma gota de água nas roupas, seu guarda-chuva deve ser mágico! - Exclamei com um tom de riso, pensando na besteira que falei.
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- Por que seria tão difícil assim? Achei que fosse tão fácil dar de cara contigo em tempos chuvosos e barulhentos, não pude deixar de notar o quanto me seguiu, sinto que és parte de mim. Mas me diga, qual o problema em me vestir assim? - perguntou ela, curiosa e ao mesmo tempo indignada.
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Foi a primeira e última vez que eu a ouvi, sua voz era como um eco sem fim, era reticências...
Parte 4 (o fim)
- Com esse tempo, fico surpresa que ainda permaneça a mesma. Não vejo sequer um pingo em sua blusa! - Respondi rapidamente.
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Mas antes que eu a perguntasse alguma coisa, ela abriu as pequenas janelas em sua mão esquerda e encheu-me, afastando seu corpo do meu, contando sem abrir a boca, que aquele era um adeus bonito ou no fundo um até logo.
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E lá se vai outra dúvida, que vista bonita que era as janelas dos seus olhos cor de mel. Ao longo do choro, ela se foi e deixou-me com o seu guarda-chuva, boiando sob meu rosto.
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E eu, um amontoado de líquido com quem estava a observar e doar seu tempo a ela. Agora entendia tudo ao ver sua partida sem precisar seguir. Ela havia me formado novamente, eu precisava dela tanto quanto ela necessitava de mim, sua ida a vagar, era leve, molhada, humana. E que bom!
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Lá estava eu, buscando alguém para investigar, alguém que conseguisse me abraçar, porque eu acho que ser uma poça de lágrimas não é tão ruim assim, a gente reconstrói quem se permite transbordar a dor ao aliviar.
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- Ah, se soubessem que às vezes, precisamos chorar para continuar a viver.

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A voz em silêncio ESCRITO POR A voz em silêncio Escritora
São Miguel dos Campos - AL

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