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CONVIVENDO COM O PREDADOR

A sensação da ausência de riscos faz-nos relaxar. Acreditamos que possuímos realmente a tal estabilidade no emprego, contamos que a lei sempre nos assegurará o que consideramos direitos e cegará diante da obrigatoriedade do dever. E se alguém tentar quebrar esse paradigma, mostrando-nos os nossos deveres legais, lembramos-lhe de imediato que não adianta nos perseguir, porque a lei existe para defender-nos dos abusos de autoridade. Isso é utopia.

Certa ocasião, sentado na praça de alimentação de um shopping de Maceió, pensava ter encontrado um lugar onde dificilmente alguém me abordaria para puxar qualquer tipo de assunto, mesmo porque escolhi um espaço pouco confortável. Foi de propósito, pois eu queria mesmo ficar sozinho, para dar início a mais um capítulo. Ledo engano. Não demorou muito e dois amigos, advogados bem conceituados, inapropriadamente, localizaram-me e, enquanto um puxava uma cadeira, o outro sacou uma pergunta: “O que você está fazendo?”. “Tentando concentrar-me para a redação de mais um capítulo do meu livro”, respondi. “Qual é o assunto?”, perguntou mais uma vez. Respondi que estava querendo mostrar que a estabilidade de emprego poderá ser o motivo da estagnação da força produtiva do servidor público.

Nesse momento, ele também puxou uma cadeira e disse: “vou contar-lhe uma história”. Bom, agora, ciente de ter perdido o meu esperado momento de solitude, desliguei o meu Laptop e o ouvi, dando-me ao privilégio de conhecer a história de um amigo chamado York:

Esse seu tema faz-me lembrar de um colega de pós-graduação chamado York. Todos, inclusive os professores, consideravam-no um gênio. Sua sapiência jurídica era extraordinária, por isso acreditávamos, por unanimidade, na rápida ascensão da sua carreira jurídica. Naquele ritmo, ele se transformaria facilmente num brilhante magistrado, ou num grande doutrinador. Entretanto, enquanto aguardava por uma oportunidade de concurso, a sua primeira participação foi para o cargo de técnico de uma instituição do poder judiciário. Assumiu a vaga e foi lotado no setor de distribuição.

No início, todos pensavam ser por pouco tempo, mas, para a nossa decepção, aos poucos ele foi acomodando-se. O salário não era de se jogar fora e ainda tinha estabilidade de emprego. Isso o fez acostumar-se com um tipo de vida previsível, como se navegasse em um mar sem ameaça de tempestade. Alguns anos passaram-se, e York, embora se possa dizer ocupante de um bom emprego, os conhecimentos que tão extraordinariamente acumulou, aos poucos, foram ficando no esquecimento em detrimento de um trabalho burocrático e automatizado. Ele deixou de ser o cara que tirava as nossas dúvidas, que encontrava a maneira correta de redigir uma petição, que tinha na memória a maioria dos dispositivos e jurisprudências e ainda conhecia os mais importantes instrumentos jurídicos. Os anos passaram-se, e, hoje, ele não é o mesmo. Desatualizado e parece ter jogado no lixo, os conhecimentos que adquiriu.

 O nome disso é estagnação da capacidade produtiva em detrimento da tão desejada estabilidade de emprego, respondi. Naquele dia, não consegui voltar a escrever, mas, em compensação, ganhei essa história como mais um instrumento de reflexão. Terminei agradecendo por ter sido tão “apropriadamente” interrompido.

O emprego seguro, com salário certo no fim do mês, mesmo que defasado, tem levado muita gente a desistir dos seus sonhos e crucificar os seus ideais.

Dentre as belas histórias chinesas, contam que um sábio, acompanhado do seu ajudante numa longa peregrinação, encontrou uma cabana isolada em um lugar ermo, à beira de uma estrada inóspita. Tratava-se de uma família muito pobre, porém simpática e hospitaleira que lhe ofereceu uma bacia com um pouco de água para lavar os pés, leite e queijo para alimentar-se.

Como vocês conseguem sobreviver, morando em um lugar tão longe de tudo. – Perguntou o sábio?

É que nós temos uma vaquinha que nos fornece o leite. Com ela, eu viajo cerca de dez quilômetros para pegar água, quando necessário. Ela também serve de força motriz, para preparar a terra e cuidar de uma pequena plantação. – Respondeu o chefe da família.

Então, essa vaquinha é tudo para vocês. Retrucou o mestre.

Sim. Eu não sei o que seria da minha família, se ela não existisse. Confirmou.

No dia seguinte, os dois peregrinos seguiram viagem e, no caminho, o ajudante perguntou: – Mestre, o que o senhor pretende fazer em benefício daquela família?

Pelo que o mestre respondeu:

Quando anoitecer, você retornará, sem que ninguém o veja, leve a vaquinha até o ponto mais alto do precipício e empurre-a.

Enquanto a ajudante permanecia perplexo com tão absurda ideia, o mestre reafirmou:

Faça isso e não me questione.

Mesmo contrariado, o ajudante obedeceu.

Anos depois, o ajudante passando pelo mesmo lugar, percebeu que aquele ambiente inóspito deu origem a uma vila bastante habitada, onde havia um belo restaurante e um centro de distribuição de alimentos. Procurou o dono daquele complexo e, quando este se apresentou, constatou ser o mesmo homem que, anos atrás, lhe dera guarida.

Como o senhor conseguiu melhorar tanto de vida, se tudo que tinha era uma vaquinha?

É que num certo dia, a nossa vaquinha caiu do topo de um precipício e morreu. Aí, sem outra opção de sobrevivência, todos nós tivemos que trabalhar. Começamos a cavar a terra em vários pontos até encontrar um manancial de águas. Com esta abundância foi-nos possível irrigar a terra que passou a produzir muitos frutos. A partir daquele momento, tudo por aqui prosperou. A vaquinha, que pensávamos ser a solução, na verdade era o motivo da nossa pobreza.

Essa história faz-me lembrar do programa Bolsa Família, entretanto, por não ser este o nosso foco, por enquanto, voltemos ao ponto original da conversa – o servidor público e a sua vaquinha, melhor dizendo, a sua estabilidade.

Uma vez, eu me encontrava no gabinete do chefe de uma das áreas da instituição, quando ele convocou um dos seus subordinados para comunicar-lhe a sua indicação para um curso, tendo em vista uma nova metodologia de trabalho. Pensei de imediato que o servidor manifestaria alegria por aquela oportunidade. Pura ilusão! Ele disse que não queria capacitar-se, porque já tinha muito serviço e isso lhe traria mais atribuições. Naquele momento, fui acometido por um forte desejo de me meter na conversa, mas contive-me, afinal não era a minha área a ainda correria o risco de ganhar um inimigo.

Diante de tanta segurança, somada à garantia do salário no fim do mês, por que ter trabalho de aprender coisas novas? Por que trabalhar oito horas por dia, se a maioria somente trabalha seis? Por que trabalhar seis, se a partir das doze não há mais o que fazer? E por que chegar às oito horas, se o chefe somente chega às dez? E assim, enquanto imaginamos levar vantagem com esse tipo de rebeldia, estagnamos a nossa capacidade produtiva, atrofiamos a nossa inteligência e tornamo-nos cada vez mais obsoletos. Quem estará perdendo com esse comodismo? O que fazer, afinal, para manter um exercício permanente da nossa inteligência e capacidade de trabalho? A essas perguntas respondo com a figura do predador.

Ponha um peixe solitário no aquário e ele morrerá de tédio. Agora ponha também um predador, e ele estará tão ocupado em se defender que não vai ter tempo de se entediar. O problema é que a maioria dos servidores públicos não consegue visualizar o predador com a devida relevância. Seja o predador do desemprego, da perda ou redução de renda, da competitividade, ou simplesmente, da necessidade de tornar-se uma pessoa melhor. E quando completam o tempo de se aposentar, descobrem que são desprovidos de habilidades, que vão ficar sem ter o que fazer, por isso fazem opção de continuar perambulando nos corredores da repartição até a compulsória chegar.

Agora, já aposentados, vão passar o resto dos seus dias perguntando-se: “O que eu fiz da minha vida? Que marcas eu deixei, se os que ficaram não lembram mais de mim? No ano seguinte, vão ter que voltar à repartição somente para provar que ainda não morreram e lembrar com saudade o tempo que não pode voltar. Agora, se o leitor me pedisse um conselho, indicaria a aplicabilidade do capítulo 9 e versículo 10 do livro de Eclesiastes, que afirma: Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obras nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.

 

Se você gostou do texto, o livro "SERVIÇO PÚBLICO - Carreira ou Estagnação", encontra disponível nos seguintes locais:

 

Em Maceió: Revistaria Porto Seguro - Praça do Centenário; e Bancas de revistas da Rua do Comério, Rua do Livramento, Orla de Pajuçara e Porta Verde; e, www.lojaviena.com.br

 






Comentários

Monique Munielle
Monique Munielle 19 de Maio de 2015 às 15:12

Encantada com a eloquência textual e com as sábias metáforas contidas em suas reflexões. Parabéns! E como o próprio ofício já denota: Que o Servidor Público faça jus à sua função: servir a sociedade, através do conhecimento mútuo.

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Edson de Carvalho Silva
Escrito por:
Edson de Carvalho Silva
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Publicado em 31 de Maio de 2012

Atualizado em 07 de Junho de 2012

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Categoria Mensagens Reflexiva


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