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Jornal Diário

Leia o mais rápido que puder, todos os santos dias, estaremos aqui no mesmo dilema, a santa leitura dinâmica de cada dia, eu sou o jornal que você compra para ler no metrô, na primeira página reservei meu bom dia, as notícias mais quentes estão na página de número um, a sua preferida dentre todo o conteúdo de minhas páginas riquíssimas de longas informações diárias, engraçado ver seu interesse sendo subjugado pela sua obrigação de ver minhas manchetes todas as manhãs de sua agitada vida.

Corra, Leia rápido, corra, será que hoje dará tempo de ver os obituários? Infelizmente não, mas os mortos podem esperar, eles não vão sair dali mesmo, não vejo alternativa para um monte de corpos a não ser esperar, deixe para ler depois, talvez recortar os obituários e os colocar no bolso da frente da jaqueta trará alguma remota lembrança de suas obrigações com tais leituras de extrema importância para alguém que já não lembra o seu próprio lema.

Não me leve para a sua casa hoje, não quero beber o xixi do seu cachorro idiota, vamos experimentar me deixar com aquele mendigo da avenida principal, soube que ele sabe ler e aprecia umas notícias, sejam elas velhas ou novas, para ele informação não tem idade, aquele mendigo sabe como se alimentar do conhecimento, talvez vocês me trocassem por um pedaço de pão outro dia, assim posso voltar para você e o mendigo ainda ganha um pão, vamos chamar de empréstimo de informação, não se preocupe comigo, após ler todas as minhas palavras, aquele velho homem irá me usar como aquecedor, sim, é verdade, todas as minhas páginas além de servir como alimento para a mente também servem como aquecimento para o corpo.

Vamos mais rápido, atropele todos as minhas cadeias de raciocínios, engula as minhas palavras sem ao menos mastigar, ouvi dizer que faz muito bem para a digestão, um verdadeiro atleta da leitura, incrível a sua agilidade de visualizar todas as minhas manchetes, admiro o jeito como me olha todos os dias, quem sabe rola uma química, desculpe, sei que não é pessoal, então corra mais rápido do que já começou, por favor não tropece agora, seria tão embaraçoso para todos nós, não se intimide com a escrita da sessão de poesias, talvez o que você procura está logo ali nos classificados.

Se a loucura lhe bater à porta das ideias, talvez você queira me guardar todos dias em seu belíssimo guarda-roupas, ficarei confortavelmente em minha nova morada, crescendo a cada dia sob a promessa de uma boa leitura, mas eu sou o jornal, inteligente demais para não acreditar que logo mais vou retornar a beber xixi de cadela mexicana, dentre todas as outras funcionalidades de meu corpo, essa é uma merda, eu não queria dizer literalmente por vergonha de admitir que o literal da coisa é bem pior, pois até embrulho de merda eu já fui por você.

Para! Chega de correr... Diminua a velocidade da sua leitura, eu sou apenas um jornal, vamos superar isso, eu admito meu papel, minha função, ou funções, eu agora até já sou digital, estou por toda a parte do mundo, cresci demais, mas acredite, sempre vou lembrar dos nossos momentos no metrô, das suas aceleradas e frias leituras, sempre foi tudo tão rápido, mas afinal, uma rapidinha também faz gozar, desculpe, sei que não é nada pessoal entre nós, afinal sou apenas um jornal diário, não posso exigir mais de sua atenção, mas meu sonho sempre será ser lido com tesão, ser lido de uma maneira diferente, visceral, ser lido e vivido, ser lido e ser lembrado, ser lido devagar para se apreciar, ser lido de um jeito que me faça ganhar vida, ser lido e me transformar em algo melhor...

Pena que sou apenas um jornal diário.

 

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Luangelys De Paula
Escrito por:
Luangelys De Paula
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Publicado em 30 de Outubro de 2014

Atualizado em 30 de Outubro de 2014

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