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Ele Não Bebe A Minha Acidez

Hoje é uma tarde especial, fui jogar xadrez com o rapaz da rua quinze, o jovem John, esta é uma atividade que adquiri a meses atrás quando encontrei pela primeira com John na esquina com a rua quinze, me lembro que naquela tarde cinzenta, deixei minha carteira cair de propósito como era de costume, para observar o comportamento da minha sociedade, as pessoas mesmo sabendo que a carteira havia caído de meu bolso, nunca haviam me parado para devolve-la, diferente de John, que desesperadamente correu atrás de mim para me devolver minha carteira.


- Senhor! A sua carteira Caiu! – Gritou o rapaz.
- Obrigado meu rapaz, quanta gentileza.
- O senhor deve tomar mais cuidado – me alertou John com um breve sorriso sincero.
- Como posso lhe agradecer?
- Eu procuro um parceiro para jogar xadrez, o senhor se interessa? – Indagou o jovem.
- Sim, é claro, me chamo Lord Bin, vamos jogar.


Daquele momento em diante, todas as tardes me encontro com John, na esquina com a rua quinze, de onde seguimos para a Praça dos Leões, sempre jogamos muitas partidas antes de chegar a hora do jantar, quase sempre ele perde, porém nunca desistiu de tentar me vencer com êxito no dia seguinte, todos os dias é a mesma coisa, diferente de hoje, pois ele se atrasou vinte minutos, quando finalmente chegou, não se desculpou, apenas me pediu para adiar em duas horas o nosso encontro cotidiano, dizendo ele que teria que resolver algo de urgência, não questionei nada julgando ser uma emergência, em seguida o rapaz desaparece em meio as pessoas. Que insolente, pensei quando já estava sozinho, quem ele pensa que é para me deixar esperando vinte minutos aqui, como se não bastasse, agora devo esperar mais duas horas, o que eu farei em duas horas? Decidi caminhar em direção à Praça dos Leões, observando as pessoas e seus comportamentos bizarros.


Após duas horas, chega John à praça, sem dizer nada além de comprimentos formais, ele se senta e inicia a partida de xadrez, curiosamente ganha a primeira partida, eu não aguentando o silencio presente mediante ao barulho de minhas divagações, decido falar um pouco.


- Conseguiu resolver seus problemas? – Indaguei com muita curiosidade.
- Sim senhor. – Disse o rapaz com frieza.
- Suponho que isso não afetou o seu desempenho no jogo, seja lá qual foi a sua emergência.


Continuamos jogando, ao fim do tempo, John havia ganhado metade das partidas, um surpreendente empate, ele se despediu e se foi. Na tarde do dia seguinte, cheguei pontualmente na esquina da rua quinze, como era de costume, para a minha surpresa, John já estava lá, porém me pediu novamente para adiar nossa partida de xadrez em duas horas, aceitei seu pedido com muita irritação, mas não deixei transparecer, ele brevemente desapareceu em meio à multidão. Em poucos minutos cheguei à praça e me sentei, aguardei ali o tempo restante, estava furioso por dentro, pela tamanha insolência daquele rapaz. Ele chegou e novamente sem dizer nada, se sentou, iniciando a partida, ao fim do tempo, um novo empate surgiu, ele se despediu e se foi. Eu não estava furioso pelo empate, mas sim pelo misterioso adiamento das nossas partidas de xadrez, sem contar a falta de explicação pelo ocorrido da parte de John.


No dia seguinte, cheguei trinta minutos atrasado ao encontro na esquina, mas John não disse nada, e antes que ele possivelmente me pedisse para adiar em duas horas a nossa partida daquele dia, eu pedi a ele para adiar aquela partida em dois dias, ele não me questionou, eu também não dei explicações, apenas desapareci em meio à multidão, eu sentia um prazer imenso que crescia dentro de mim enquanto imaginava o que se passava pela cabeça de John enquanto me aguardaria por dois dias, acredito que ele vai aprender a lição. Dois dias se passarão, estava eu a caminho da esquina com a rua quinze, pensava com muito orgulho na maneira como solucionei aquele problema, finalmente vou jogar xadrez do jeito como programei durante toda a minha manhã. Ao me encontrar com John, ele não disse nada, apenas me sorriu e fez seus comprimentos formais.


- Vamos jogar? – indaguei com muita satisfação
- Preciso adiar nossa partida, em duas horas, certo? – Disse John sem hesitar.
- Certo, em duas horas. – Um vulcão de raiva preenchia o meu peito.


Antes que John desaparecesse em meio as pessoas, eu segui a sua silhueta, estava decidido a seguir aquele insolente rapaz, precisava descobrir o que ele fazia durante essas duas horas, o impulso que tomou conta de mim não me deixou perder ele de vista, John entrou na Biblioteca Central, lá dentro, para a minha surpresa, ele pegou uns livros, eram livros sobre xadrez, possivelmente técnicas avançadas de como se jogar xadrez. Ele passou o tempo todo ali, estudando, então decidi perguntar ao bibliotecário, de maneira sutil e educada, se John havia vindo ali outras vezes, e por alguns generosos trocados de meu dinheiro o bibliotecário me deu a informação de que nos últimos dias John havia passado cerca de duas horas ali dentro, estudando livros sobre xadrez. Sai correndo dali para a Praça dos Leões, precisava chegar antes de John, subi em uma carruagem e cheguei a tempo. Quando ele chegou, sem dizer nada, sorriu e se sentou, iniciamos a partida, foi uma partida difícil para mim, mas consegui empatar ao fim do tempo, ele se levantou e sorriu, mas antes que se despedisse, eu precisava falar algo.


- John, amanhã vamos nos encontrar duas horas mais tarde, certo?
- Sim senhor.


Na tarde do dia seguinte, nos encontramos pontualmente e seguimos para a praça, John estava sorridente e aparentava estar muito confiante. Chegamos à Praça dos Leões e iniciamos nossa partida de xadrez, ao fim do tempo, John havia ganhado todas as jogadas daquela partida. Ele sorriu e já se preparava para se despedir, quando eu pedi para ele aguardar um pouco mais, precisava dizer algo.


- Parabéns John, você me venceu!
- Senhor, é uma grande honra para mim.
- Quais são os seus planos agora que finalmente me venceu?
- Planos?
- Sim, o que pretende fazer?
- Não sei senhor, vou para casa jantar e amanhã jogaremos mais vezes.
- Entendo. Vamos brindar sua vitória então, por coincidência trouxe comigo esta pequena garrafa de licor.
- Tão pequena que cabe no bolso de seu casaco.
- Exatamente John, assim como cabe na mente.


Após alguns risos, brindamos a vitória de John, eu lhe passei a pequena garrafa de licor, dei ao rapaz a honra de tomar o primeiro gole, mérito de sua vitória brilhante. Ele bebeu euforicamente, saciando a sua sede, observei seu estranhamento ao me entregar a garrafa e antes que conseguisse me perguntar se eu não beberia também, sua respiração falhou, seus olhos lacrimejaram, os olhos de John se abriram de maneira assustadora, de maneira que consegui ver a dilatação de suas pupilas em meio a baixa luz, sua boca se abriu logo em seguida, acredito que ele tentava respirar de algum jeito, a praça sempre ficava vazia naquele horário, acho que éramos os únicos que jogavam xadrez naquele horário, John tentava dizer algo, mas a sua garganta estava se fechando ao passar das frações de segundo, não demorou muito até que ele caiu por cima da mesa de xadrez e suas peças. Minha carruagem chegou na hora certa, pontualmente como de costume, carreguei o corpo sem vida de John para dentro da carruagem.
A carruagem seguiu para o alto da colina, onde fica a minha residência, ao chegar em minha casa, descarreguei o corpo do insolente direto para o chão, arrastei o cumprido corpo de John por todo o jardim, o puxando pelas pernas, no fundo do meu jardim, ficava a cripta da família, um mausoléu que guardava os corpos de meus falecidos parentes, lá dentro, coloquei o corpo de John dentro do túmulo de minha falecida e infiel esposa, Elizabeth.


- Querida Elizabeth, encontrei seu amante, e trouxe ele para ficar junto a você, nada mais justo para a sua eterna felicidade.
- Querida, você nunca entendeu as minhas palavras, mas entendia o John, pois ele não é igual a mim.
- Você estava certa querida, sempre esteve, o John realmente não é igual a mim...


Pois ele não bebe a minha acidez.

 

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Escrito por:
Luangelys De Paula
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Publicado em 12 de Janeiro de 2015

Atualizado em 17 de Janeiro de 2015

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