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Breve Reflexão sobre o documentário "ESTAMIRA", de Marcos Prado

Estamira Gomes de Souza, uma mulher louca, porém de uma lucidez estarrecedora. Psicótica, mais de uma eloquência admirável. Esquizofrênica, mas que se diz autocontrolada, com algumas demonstrações disso. Segundo ela mesma se diz, é pessoa ruim, mas sem perversidade. Levou parte da sua vida aparentemente normal, apesar do sofrimento que vivenciou, do estupro que sofreu do avô e das perversidades do seu ex-esposo, que o chama de “desgraçado da família Itália”. Todavia, segundo sua filha, foi por ocasião da violência do segundo estupro que ela perdeu a fé, abriu mão de Deus e mergulhou em um mundo que é mistura de alucinações, lucidez e fantasias. Trabalha em no aterro Sanitário do Jardim Gramacho e, no meio do lixo e numa vida sub humana, ela declara adorar aquele lugar. Mas, foi no turbilhão das suas emoções, que ela nos permitiu algumas reflexões, seja sobre a economia, religião, ética e filosofia, dentre as quais, se veem:

      1. Economia

Com os olhos fitos nos entulhos de lixo, ela diz: Isso aqui é um depósito de restos. E às vezes, de descuido (...) Economizar as coisas é maravilhoso. Quem economiza tem. Não diferentemente do que disse o Rei Salomão quando afirmou que O homem sensato tem o suficiente para viver na riqueza e na fartura, mas o insensato não, porque gasta tudo o que ganhai, Estamira lembra uma fórmula que muitos ainda carecem de aprendizado: Viver com menos do que ganha e poupar para o investimento em uma vida melhor. Para tanto, ressalta-se, em outras palavras, o que diz Silva (2012:89) a maioria dos servidores públicos gastam tudo que recebe, e que não se pode culpar o custo de vida, nem o “baixo” salário, e sim a sede de consumo em função da expectativa de receita. Afirma finalmente que independente do nível salarial, todos podem viver com 70% do que ganham. Assim, não necessitarão buscar os empréstimos consignados quando a adversidade chegar.

Pelo dito, acredita-se bem vinda a lição de Estamira, haja vista que o processo de endividamento do servidor público implica na qualidade do seu trabalho, provoca movimentos reivindicatórios, desatenção, murmuração e falta de interesse pela coisa pública. Tudo isso por acreditar que suas dificuldades decorrem sempre da negligência do governo.

      1. Religião

Em meio à sua loucura, Estamira se diz não acreditar mais em DEUS. Segundo sua filha, no auge de uma violência sexual ao estremo, fez uso da frase “pelo amor de DEUS” sem que o atormentador se sensibilizasse. Decepcionada, segundo a limitação da sua devoção no Criador, Estamira se revolta, mas ao mesmo tempo confessa que tem controle superior; que o cometa é o seu comandante e se irrita sobremaneira quando alguém fala no nome de Deus. Contudo, sua agressividade jamais extrapolou o limite da sua retórica. É como ele mesma disse: “eu sou ruim, mas não tenho perversidade”.

      1. Ética

Estamira detesta o hipócrita e, para demonstrar ser diferente, vai logo dizendo: A minha missão, além de ser a Estamira, é de revelar somente a verdade. Seja a mentira e tacar na cara e de ensinar o que ele não sabe (...) quem revelou o homem o único condicional, não ensinou a trair, mentir, ensinou a ajudar.

Segundo a tempestade de suas emoções, Estamira, conforme sua fala acima citada, reconhece que o ser superior (o Cometa, que é o próprio Deus criador) ensinou o homem a ser honesto, verdadeiro, fiel e compassivo, mas que este ser, no decorrer das suas influências cotidianas e, fazendo uso do seu livre arbítrio, se desviou dos ensinamentos divinos e seguiram seus próprios interesses, relegando à marginalidade, os que julgam não ter nada a contribuir com suas conquistas pessoais cuja sociedade tenta esconder. A estes ela os chama de “trocadilho”, “amaldiçoado”, “terra suja” e “descomungado”, adjetivos também atribuídos ao esposo que a abandonou após maltratá-la continuamente, mesmo que declare por ele saudade e amor incondicional.

      1. Filosofia

Me trata como eu trato que eu te devolvo o teu trato. E faço questão de te devolver em triplo.

A fala da Estamira, na verdade, é quase uma paráfrase do que diz o Evangelho segundo São Mateus 7:12: Façam aos outros o que querem que eles façam com vocês. No caso de Estamira, ela promete fazer o triplo. Isso pelo seu desejo de ser respeitada, de ser visível, de ser ouvida.

Quando Estamira diz: eu tô lá, eu tô cá e todos dependem de mim (...) Estamira tá em todo lugar”. Com isso, ela não afirma ser onipresente, mas que em cada canto há sempre alguém com as mesmas necessidades e, se os que a conheceram se encheram-se de compaixão é só olhar em sua volta, na periferia de sua cidade, nos sítios e povoados que outras Estamiras lá estão a espera de alguém que, com sensibilidade os socorram.

Quem já teve medo de dizer a verdade, largou de morrer?; Quem anda com Deus dia e noite..., largou de morrer? E ainda mais com deboche, largou de morrer?

Estamira lembra a todas as pessoas que independentemente do que eles fazem ou deixam de fazer, de conquista ou do poder que abraçam, todos se igualarão quando descerem à sepultura. Fala como se nisso consistisse a sua esperança: quando eu desencarnar, quem sabe eu poderei ajudar a alguém?, revelando aí, o seu desejo de ser útil às pessoas, porque, apesar da sua loucura, Estamira tem amor ao ser humano e até fantasia que ninguém pode viver sem ela.

Outra reflexão que não se pode refutar é no que Estamira, com os olhos voltados para os companheiros do lixão, diz: Isso aqui é um disfarce de escravo... escravo disfarçado de liberto... Olha, a Isabel soltou eles e não deu emprego para os escravos. Passam fome, come qualquer coisa, como os animais. Com isso, Estamira faz, em poucas palavras, uma síntese que diversos estudiosos buscam compreender – a negligência governamental no preparo dos escravos para a vida gerou problemas que até os dias de hoje se tentam superar, haja vista a questão das comunidades quilombolas, esquecidas pelo governo e sociedade ao longo do tempo.

      1. Sobre os Métodos de Tratamento da Doença Mental

No Centro de Assistência Psicossocial José Miller, a doutora pergunta à Estamira: Você ainda escuta vozes? Ela responde: Eu escuto os astros... tem vez que eu fico perguntando como é que eu sou lúcida e passa a comentar a consulta: eu não sou um robô sanguíneo. Eu quero bem a ela, mas ela é copiadora. Estamira, não acredita que uma doutora que apenas copia o que aprendeu, possa entender o que ela sabe da vida e de seus distúrbios, porque os remédios que eles aplicam servem para piorar a sua loucura.

Estamira lembra a situação de sua mãe quando internada em um hospital psiquiátrico, fazendo críticas severas aos métodos desumanos de tratamento; aos remédios que se administram que a deixam mais louca ainda e, pelos resultados constatados no seu tratamento chega a uma só conclusão, os médicos não sabem, eles apenas copiam o que aprenderam e dopam os pacientes.

 

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Edson de Carvalho Silva
Escrito por:
Edson de Carvalho Silva
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Publicado em 16 de Maio de 2015

Atualizado em 22 de Março de 2018

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