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Me, comigo! dois

Me, comigo! (dois)

 

A pele estremece ao toque;

A inquietação, a euforia,

A explosão dos sentidos

A implosão de possibilidades,

O silêncio solitário...

A viagem a lugar nenhum.

Tesão – Lindair de M. Amaral

 

Após uma noite envolto em volúpia e tesão “a manhã me socorreu com flores e aves, suaves”. Enlaçado por braços morenos com pelos descoloridos e nus, esbocei um sorriso sacana e naveguei meu olhar pelo cômodo harmoniosamente decorado em que me encontrava.

Pude perceber à minha esquerda uma janela guarnecida por uma cortina em voal de linho drapeada que obstruía na dosagem certa a passagem da luz, produzindo um efeito aconchegante no ambiente, ao mesmo tempo em que dançava ao sabor do vento leve que soprava vindo da varanda atrás de si e a envolvia enamorado. No lado oposto a janela, uma mesa de canto em madeira trabalhada. Sobre ela, um ramalhete de peônias, duas taças contendo ainda um pouco de vinho que docemente dormitava no fundo e algumas pétalas espalhadas. Ao lado das garrafas de vinho – duas - vazias, duas flores beijavam-se sobre um sousplat branco grafado com um ideograma japonês. Um lenço branco com respingos de vinho descansava sobre um livro entreaberto ao lado de um cinzeiro de madrepérola. Deste, uma fumaça emanava livre traçando um diálogo íntimo com a brisa que escapava aos abraços da cortina.

Duas cadeiras ricamente acolchoadas em vermelho queimado ladeavam a mesa. Numa delas um vestido branco reclinava-se tocando levemente o piso. Na outra, uma calcinha em tom pérola, pendia de um braço tocando suave o acolchoado como se fora um beijo. No chão, um soutien enroscava-se nervoso em uma das pernas da cadeira. Como se fora jogado.

Na parede acima da mesa uma pintura delineada por linhas suaves que se cruzavam sobre cores, também, suaves, compunham um nu feminino. Em cada lado do quadro uma luminária. Atrás de mim, sobre a cabeceira, um outro quadro retratando, também, um nu, só que, masculino.

À minha frente uma parede recoberta com um papel que imitava uma folha de jornal. Em cada lado desta parede havia uma porta plotada com o mesmo motivo, estando entreabertas. A da esquerda dava aceso a um closet e a outra a um banheiro decorado em preto e branco. Entre as duas, acima de um “chaise longue” de madeira envernizada com acolchoado no mesmo tom das cadeiras, um espelho. Nele pude ver refletido meu cabelo despenteado, meus olhos sonolentos e meu peito desnudo. Soergui-me um pouco me apoiando pelos cotovelos tentando me levantar. Inútil. Um desconforto leve me fez deitar novamente.

Fechei os olhos e pensei em dormir novamente. Um leve movimento sob o lençol trouxe-me de volta. Com a ponta dos dedos puxei devagar o cobertor e pude ver a exuberância provocante da tez morena diante de mim. Vi aos poucos desnudar-se ante meus olhos, os pés com seus dedos alongados beijando-se suavemente, e vi quando roçaram-se despertando em mim pensamentos concupiscentes. Num afã, continuei desnudando aquele corpo moreno, cheiroso e vi as pernas mostrarem-se em toda sua exuberância. Vi, também, os pelos doirados eriçarem-se ao leve toque na derme do ar frio que nos envolvia. Vi quando estes mesmos pelos balouçaram ao sabor de minha respiração, agora mais intensa.

Por sobre o tecido de algodão, tateei com os dedos meu volume até alcançar a glande e ali fiz uma carícia leve, mas constante, fazendo-o enrijecer. “A sensação ébria do toque”, energizado, contaminado pelo desejo de toda aquela cena me excitava. “O perfume ardente do sexo”, agora pude perceber, inundava o quarto despertando em mim “meus instintos mais sacanas”. E era bom.

A beleza da bunda eclodiu com toda sua opulência. Pela perfeição diria que foi esculpida pelas mãos de um Deus e faria Narciso, com certeza, sentir inveja. A marca do biquíni tatuada sobre a pele morena era inebriante. Eu, lascivo, me perdia naquela visão. Minhas mãos, desobedientes, já teciam um diálogo confidente com meu membro rijo. O olhar acesso, como a me dizer: não deixe escapar palavras, que escapem apenas “gestos incontidos e movimentos em deslize”, numa inconsequente bravura. Ora rápidos com volúpia nas mãos, ora lentos tentando controlar o gozo e prolongar aquele momento, meus movimentos eram senhores de mim.

Ouse! Sinta! Viva a impiedosa dor do prazer solitário. Oh, meu Deus! Isto não é pecado. Não é pecado.

Após ela fazer um movimento, que não sei se foi intencional, me contorci atrás de uma visão mais favorável e postei-me de tal forma que pude vislumbrar, envolto pelas coxas roliças, o púbis – regado de pura emoção, despido e deslumbrante, em toda sua inebriante beleza.

De pronto me imaginei beijando aqueles grandes lábios sem pelos, que naquela posição recebendo a incidência da luz, reluzia ao âmbar. Me vi mordiscando a pele macia até o limite da dor e do prazer para em seguida lambuzar com minha língua sedenta de gozo a abertura quente e aveludada do prazer. Se for para morrer que seja envolto pelo odor pecaminoso do prazer finito de um gozo. Pensei sacanamente.

A esta altura meu membro excitadíssimo e rijo em minha mão devassa, vibrava com força em movimentos fortes tentando aplacar a vontade louca que me dominava. Me imaginei em estocadas que poderiam ser viris até ouvir o urro desejoso de querer mais e mais rápido; me imaginei acariciando os pequenos lábios com a glande inchada e pulsante como num beijo úmido de prazer; me imaginei massageando o clitóris com pancadas disritmadas do membro latejante e teso. Eu, salaz, me perdia enredado pela teia inquietante da lascívia.

E ao desnudá-la por completo, contemplei toda a perfeição da beleza assimétrica do torso feminino. A suavidade das curvas, a cintura, o pescoço, os seios, as axilas, os pés, a indecifrável beleza da tez morena exalando um cheiro forte de desejo, o cabelo cacheado acariciando as costas e dormindo sobre os ombros nus, me excitavam. A bunda voluptuosa, as coxas arredondas coberta com pelos doirados inebriavam. Minha mão num frenesi, minha boca arfando, minha respiração rápida, minha boca em gemidos ininteligíveis, meus olhos inebriados por tal visão, já não conseguia controlar os movimentos que agora eram fortes. Minha mão não mais respondia aos pensamentos e comandava aquele espetáculo maravilhoso de força e beleza e movimento e prazer. O movimento do colchão sincronizado com os meus permitiam um prazer indecifrável, como “uma palavra sem letras”. O balouçar do colchão trouxe vida aquela deusa que adormecida, descrevia linhas que minhas mãos e meu membro inquieto queriam tocar.

Ao desvirar-se preguiçosa e provocante pude ver seus mamilos firmes apontarem para mim acusando-me, ameaçando-me, incitando-me, implorando-me por um toque de meus lábios úmidos e lânguidos e lascivos e vorazes.

Desci meu olhar percorrendo o corpo – uma deidade concupiscente - até repousar meus olhos sobre o monte de vênus, volumoso, raspado, moreno “capaz de fazer implodir ou explodir qualquer alma, capaz de fazer delirar um mortal”, levando-o a loucura.

Nisto, minhas mãos já não escreviam versos, nem melodias. Eram, então, anjos em desarmonia, eram o mar em tempestade e num último movimento eclodiu de mim gotas quentes e silenciosas em meio a sussurros e olhares e gestos e desejo e lascívia e prazer e gozo.

Ao leve toque do néctar salgado e odorífico de mim sobre sua pele adocicada, sua boca sorriu e sussurrou: Amo-te!

E eu, saciado, lhe beijei a boca e sorri.

                ...

Não há pecado quando escrevemos sobre as mesmas linhas, sonhos e desejos. No ápice do gozo nossas almas deslizam lentas e, livres, somem no ar. O amor? O amor...é poesia que a vida escreve em mim e você. 

 

 

Autor: André Maurício

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Publicado em 01 de Novembro de 2017

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