A Voz da Vocação

William Torquato William Torquato 17 de Setembro de 2019
20 de Setembro de 2019

Foi assim que terminei a faculdade de Psicologia, estava procurando emprego, deixando alguns currículos aqui e ali, falando com conhecidos, enfim, fazendo networking. Mais difícil do que eu pensava, por sinal, mas tive lá algum sucesso. O problema começou quando, de uma hora para a outra, parei de ouvir a voz das pessoas; não havia relação em conhecê-las ou não, a "voz muda" não distinguia conhecidos de desconhecidos.

A primeira vez foi no supermercado, eu estava passando as compras no caixa como de costume, mas, no momento que a atendente deveria perguntar qual seria a forma de pagamento, não houve som algum de sua boca; os lábios se moviam, os músculos do rosto se contorciam dando forma às letras, sílabas, palavras e frases, mas não havia nenhum som, sequer um ruído saindo da boca dela. Era como assistir a um filme mudo.

Minutos depois voltou a acontecer no ponto de ônibus, agora com todas as pessoas que estavam presentes, cerca de sete. Três se conheciam e conversavam continuamente, sorrindo umas para as outras como boas amigas. No entanto, não se ouvia nenhum barulho, nenhum som das vozes ou risadas ou falas. As pessoas que falavam ao celular também não emitiam sons, como se uma bolha invisível estivesse bloqueando tudo.

Pouco-a-pouco, ao longo do dia, eu não conseguia mais ouvir nenhuma pessoa, apenas os sons da natureza e dos objetos não-naturais como veículos. Nenhuma voz. Foi assim após descer do ônibus, passar na padaria, farmácia e no consultório do doutor. Quando estava certo da minha insanidade, cogitando, talvez, me internar, entrei em um táxi para tentar chegar em casa mais cedo e deitar, talvez um bom descanso ajudasse a resolver aquela estranha situação. Antes do taxista perguntar, falei o endereço que desejava ir, foi no momento seguinte que tomei um tremendo susto: ele respondeu com um "Ok, chefe!" e, sem explicação, consegui ouvir sua voz perfeitamente.

"Será minha imaginação?", era uma dúvida natural, até mesmo justa. "Eu consigo ouvir sua voz, senhor!", falei pelo impulso da boa surpresa, o taxista franziu o cenho pelo retrovisor: "Como assim?", perguntou confuso, "Por que o senhor não me ouviria?", quis saber, "O senhor não acreditaria seu eu falasse."

Aquilo aconteceu durante todo o dia. A maioria das pessoas continuava sem voz para mim, como se fizessem mímica, enquanto outras pouquíssimas conseguiam emitir sons normalmente: o guarda na esquina, o advogado com a pasta de couro marrom passando apressado, o vendedor de livros usados, a professora comprando sorvete. Tão diferentes uns dos outros… eu não entendia a relação entre eles. Enquanto pensava, parado em frente à porta de casa, meu celular tocou, era a mulher do RH com quem eu havia deixado um currículo. Conversamos por alguns minutos e marcamos uma entrevista para às 15h, eram 14:12 quando finalizamos a chamada. Eu estava transbordando de alegria que mal conseguia colocar a chave na fechadura para abrir a porta. Finalmente consegui! Adentrei impetuoso, sorrindo, o coração acelerado pela ansiedade.

Bastava abrir a segunda porta para entrar em casa, mas antes de conseguir girá-la uma voz disse meu nome, estava fraca, mas consegui ouvir; virei-me rápido e vi minha vizinha, uma senhora de sessenta e poucos anos, cabelos brancos finos, dava para ver sua cabeça pelada, pele enrugada como maracujá, olhos azuis como o céu, porém tristes. "Aconteceu alguma coisa, dona Iêda?", ela balançou a cabeça dizendo que não, mas duas lágrimas caíram e ela se apoiou na parede. No ínfimo intervalo entre as lágrimas caindo e seu magro corpo cansado se recostar sobre a parede fria foi que eu entendi tudo o que havia acontecido durante todo aquele dia.

Sorri para ela com toda a ternura que já havia sentido na vida, então fui até lá aonde estava, passei o braço ao redor de seus ombros ossudos e a puxei contra mim: "Vamos entrar. Lá dentro podemos conversar com calma tomando um café. Sei que a senhora adora café.", nós dois sorrimos. Fechei a porta com um dos pés sem desfazer o abraço. Ficamos até às 19h conversando antes dela cair no sono depois de quatro xícaras de café e um punhado de biscoitos de maisena. O mais incrível de tudo é como não consigo esquecer sua voz doce, mesmo após sua inesperada morte eu ainda lembro como se ela estivesse falando aos meus ouvidos.

Naquele dia eu perdi a entrevista, mas entendi qual era meu propósito neste mundo.

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William Torquato ESCRITO POR William Torquato Escritor
Anadia - AL

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