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Demissão

 
Acordei de um susto, atrasado e sem noção de espaço. Topei o dedo na quina da parede e me direcionei ao banheiro manquejando e gritando os mais variados e terríveis nomes do meu vocabulário de ódio. Enquanto eu observava às espinhas da minha face no espelho, ouvi, longinquamente, o barulho do celular tocando no quarto. Minha queridíssima esposa atendeu, e me deu o celular:
É o teu chefe.
Na cozinha, estava eu preparando o café, quando de repente, sem perceber a presença da minha amada, senti o suave ar de sua boca soprar em minha nuca. Virei-me sorridente, e vi os seus olhinhos semicerrados de sono. Cintilava-me a alma de tanto carinho que me dava, e eu retribuía-os com galanteios, beijos e carícias lúbricas. Ainda meio triste por dentro, e jubilosamente atônito por contemplar aquela beleza natural da manhã, precisei lhe dar a notícia:
O que o teu chefe queria, amor?
Ligou-me só para me demitir!
Como assim? O que ele disse?
Disse-me que não precisaria de mim no trabalho, e recomendou-me passar no escritório para entregar a carteira de trabalho ainda hoje, sem falta.
O que mais ele disse?
Não disse mais nada. Sentei-me no sofá com Joana para planejar e calcular as despesas do mês. A minha sorte e providência estavam sob a força de trabalho de minha esposa. O salário de enfermeira não era lá essas coisas, mas dava para o gasto; aguentaríamos o tranco e suportaríamos as intempéries com mais leveza; minha auxiliadora, osso dos meus ossos e carne da minha carne assumiria o controle por um breve período de tempo.
No mesmo dia, coloquei a mochila nas costas, a carteira de trabalho no bolso e alguns currículos na pasta. Já que havia sido desligado da empresa, ainda não sabendo ao certo o porquê, desviei-me do caminho que até lá me dirigia, e segui para o centro da cidade de Maceió para me candidatar a alguma vaga de emprego.
Naquele exercício de caminhada, no qual sempre tomei como uma atividade para refrescar as ideias, pensava eu na vida, na morte, no bebê que estava para chegar daqui a algumas semanas, na política brasileira, na cultura superior etc., quando observei de longe uma senhora sentada na calçada. Em meio a tempos de crise, infortúnios impremeditáveis e instabilidade natural, aprendi recentemente que ao fazer o bem quando tudo vai mal é nadar contra a corrente. Enquanto a nossa mão direita estende-se ao pobre, na intenção de livrá-lo da furiosa onda que o afoga, o mundo puxa a esquerda; porém não só as mãos, mas também os pés, as pernas e o corpo todo, transmutando à forma da caridade em outra. A forma da caridade sempre foi um ato da vontade inspirado pelo amor ao próximo e representado pela igreja, e obviamente, dirigida pelo amor de Deus; mas hoje, tomou forma de filantropia estatal. Selecionar com argúcia quem não faz parte da máfia dos mendigos, tornou-se regra de bondade entre poucos liberais que não contentam-se apenas em negar esmolas a falsos pedintes, hão também de consolar-se na esperança de elevar a condição social de todos eles: e tudo isso revolve sutilmente a percepção nossa.
Tirei cinco reais do bolso para dar a miserável. Eu a percebi imóvel, incapaz de qualquer reação. O rosto da pobre mulher escondia-se sob um vago olhar despreocupado e sem vergonha de mostrar os trapos sujos da própria pele. Os meus dedos seguravam a nota pela metade a fim de manter espaço aos dedos dela para não tocarem os meus. Não encontrei nenhum pote no qual pudesse depositar o dinheiro, e isso me fez imaginar um possível gesto de agradecimento da pedinte: um aperto de mão, um beijo molhado e intenso de felicidade que movesse em mim repulsa.
Ao aproximar-me da velha, faltando pelo menos uns dez metros de distância para lhe dar a grana, mudei de ideia pelo susto imediato que levei, e num milésimo de segundos, dobrei a esquina quando a vi inalando um produto enebriante contido dentro duma garrafinha de refrigerante. Minha consciência, nitidamente moralizadora, deu-me um sermão justificativo de negação da caridade: “Se eu der o dinheiro a ela, provavelmente ela irá gastá-loem uma boca de fumo”, pensei cá com os meus botões.
O anjo bom e o diabinho disputavam a primazia da verdade. Gabrielzinho, o anjo bom, dizia-me:
És a onisciência divina, rapaz? Como sabes que a moça gastará o dinheiro com drogas?
E Lucinho, o anjo mal, contra-argumentava:
Você não a viu claramente, jovem? Ela estava completamente sem noção; nem fome, nem necessidades naturais existiam mais naquela alma. Dar a esmola destruiria a velha.
Se droga ou comida seriam as opções da senhora, você não sabe ao certo o que ela faria. Então, o bem que você deveria fazer e não fez, é obviamente um pecado, disse-me Gabrielzinho. E pra completar, por que está julgando-a? Por acaso não és tu também um miserável? Por que então a ela não destes um lanchinho? Isto já bastava.
Suspendi qualquer juízo moral naquele instante e, ao dobrar a esquina de uma curta viela, sem movimentação como de costume, procurei outros desvalidos para entregar aquele dinheiro amaldiçoado de julgamento e mesquinharia. Eu não poderia mais voltar e entregar a grana para ela, a discussão dialética dos dois anjinhos havia demorado a iniciar; o percurso de volta não valia mais a pena, – não valia a pena para mim, mas para ela, era a provisão divina. Eram cinco reais, e só. Metade da grana era a minha passagem de volta para casa. Eu estava a 15 km de distância de minha família, com fome, cansado e com o peso do mal em minhas costas. Pedi a Santíssima Virgem proteção, e a Deus o seu perdão.
Próximo ao bar chop, no calçadão do centro de Maceió, encontrei um cego cantador de feiras e não pensei duas vezes: joguei a grana em sua panelinha. O velho cego remexia o seu chocalho ao sol do meio dia cantando os sucessos de Roberto Carlos e, sob a escuridão do mundo à sua volta, tentava alegrar o dia das pessoas que circulavam vagarosamente em seu em torno. E por que não dei somente a metade? O auto-julgamento me impulsionou a penitenciar-me pelo pecado praticado; calejaria os pés de tanto andar por não ter dado o dinheiro para aquela usuária de drogas. E mesmo assim, ainda sentia-me culpado pelo julgamento consciente. Já perdi as contas de quantas vezes decidi aplacar as minhas dores e fracassos com inúmeras doses de Jack Daniels, ao som de Bee Gees, e ouvindo os justos gritos de minha amada me chamando de cachaceiro. Os nossos pecados pertenciam a mesma natureza – um pouco diferente na descrição, é claro –, porém o meu custava um pouco mais, só isso.
Coloquei os fones nos ouvidos e segui viagem de volta para casa.
Não custava nada saber o motivo de minha demissão, então, aproveitei o ensejo, e fui visitar o chefe, já que o percurso me obrigaria a passar pela empresa:
Como assim? Você está louco? Eu não lhe demiti, Rogério. Eu só te pedi para levar a carteira de trabalho ao escritório para mudarem a tua presente função de “auxiliar administrativo” para “Analista”. Mas quando dei início de explicar o porquê, a ligação simplesmente caiu; ou sei lá! talvez você tenha desligado na minha cara!
Mas você disse que eu não precisava vir trabalhar hoje!
A Mônica precisou vir trabalhar hoje para folgar amanhã. Coisas de família.
Ah! Suspirei aliviado.
Ah! Nada, venha trabalhar amanhã, e leve a carteira logo, viu?
À noite, depois do banho, deitei-me com Joana, e ao pé de sua barriga eu recitava os sonetos de Camões, e o pequeno Gabriel dava os seus chutinhos, um sinal de que estava gostando da musicalidade dos poemas.
 

 

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Éverton M Silva
Escrito por:
Éverton M Silva
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Publicado em 03 de Outubro de 2019

Atualizado em 31 de Outubro de 2019

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